P. Videogames: SimCity e educação política

Oi pessoal, essa postagem é especial e escrevi com a minha mãe, ao longo do ano de 2021, mergulhamos em um estudo aprofundado sobre a organização coletiva, uma jornada na qual nos envolvemos com entusiasmo. Em meio a essa exploração, encontramos no videogame para tablet SimCity uma ferramenta valiosa, que se revelou mais intuitiva e amigável do que o Cities Skylines. Mas, nesta postagem vou falar de como exploramos cities skyline. 

Refletimos sobre a ficção do Estado, legado de nossos ancestrais, que nos impõe uma estrutura de poder uno e indivisível. Somos compelidos a nos submeter a esse acordo, embora, muitas vezes, de forma inconsciente. No entanto, percebemos a sabedoria em distribuir o poder em diferentes funções, criando um sistema de fiscalização e controle mútuo. É neste contexto que nos concentramos no estudo do poder executivo municipal, mais especificamente nas prefeituras dos municípios, utilizando o videojogo Cities Skylines como uma lente de ampliação para compreender essas dinâmicas.

Dividido em três níveis de governo - federal, estadual e municipal - o Estado brasileiro se desdobra em uma complexa teia de responsabilidades. Enquanto o governo federal trata de questões de alcance nacional, como segurança e saúde pública, o governo municipal assume um papel crucial na gestão dos assuntos locais.

Consultamos fontes diversas para definir e compreender o papel das prefeituras, mergulhando no significado de um município e de uma cidade. Descobrimos que a prefeitura, como sede do poder executivo municipal, desempenha um papel vital na administração local. Sob a liderança do prefeito, é dividida em diferentes secretarias que abrangem áreas como educação, saúde, transporte, entre outras.

Para tornar esse estudo mais acessível, decidimos mapear as principais atividades das secretarias municipais e relacioná-las com os conceitos apresentados no jogo Cities Skylines. Dessa forma, buscamos criar uma ponte entre a teoria e a prática, facilitando o entendimento das dinâmicas da administração pública.

Ao explorar as funcionalidades do jogo, recorremos a recursos que nos permitiram focar no objetivo principal: compreender a organização de um município. Habilitamos o módulo de "Dinheiro Ilimitado", não para facilitar o jogo, mas para direcionar nossa atenção para as diferentes áreas que compõem uma cidade.

Nesta apresentação, compartilhamos nossa jornada de descoberta e aprendizado, na esperança de que ela inspire novas reflexões e questionamentos sobre o funcionamento da sociedade e do Estado. Que possamos continuar explorando juntos, construindo um entendimento mais profundo sobre o mundo que nos cerca.




Após encetar uma estrutura inicial (de ruas, eletricidade e água), o vídeo tutorial - que escolhemos para nos guiar - recomenda abrir o painel de controle da economia do município - que é como a secretaria de finanças do município no videojogo Cities Skyline - que dá acesso aos processos relativos às despesas e finanças do município. Aprendemos que o orçamento de serviços no videojogo pode ser definido entre 50% e 150%. O jogador pode ajustar os impostos para todas as zonas diferentes separadamente de 1% a 29% (a taxa de imposto padrão é de 9% para todas as zonas). Os impostos mais altos aumentam a renda semanal, mas têm um efeito negativo na demanda. Moradores e empresas começam a protestar se os impostos aumentam acima de 13/14% por muito tempo, mas um pequeno aumento de impostos é uma boa maneira de ganhar algum dinheiro rápido se você não quiser fazer outro empréstimo. O primeiro empréstimo é desbloqueado após o primeiro marco, e mais dois em marcos posteriores. Há também uma oferta de resgate que pode ser aceita ou rejeitada sempre que o indicador de dinheiro cair abaixo de - ₡ 10.000. Aprendemos que numa prefeitura de verdade é preciso lidar com um orçamento, geralmente apertado, ao enfrentar os desafios que enfrentamos no jogo.

Sistema viário

Então, seguindo um vídeo tutorial, primeiro estabelecemos o sistema viário, isto é, desenhamos as ruas na forma de uma grelha, uma avenida principal, com os lotes voltados para ela, e as ruas paralelas, visando o melhor tráfego possível de veículos pelo município, das concessões e permissões do transporte público; a gestão do sistema de sinalização e de dispositivos eletrônicos:



E aqui introduzimos várias questões que a secretaria de urbanismo - com o loteamento, transportes, o tráfego - precisam lidar. Nós já tínhamos estudado com o videojogo Assassin’s Creed a formação das cidades, e passeamos, como numa viagem no tempo, pelos cenários reproduzidos no videojogo, como eram insalubres, e nós conversamos como foi preciso um coletivo, por muitas gerações, dedicado a pensar maneiras de organizar o espaço dos municípios, para melhorar as condições de vida.

Acreditamos que o autor do vídeo tutorial - que nos orientou na construção do município no videojogo Cities Skyline - se inspirou na chamada “cidade linear”, que é um modelo de cidade concebido pelo urbanista espanhol Arturo Soria y Mata em fins do século XIX, construído como bairro experimental na periferia de Madri, Espanha. A cidade linear tem como característica mais marcante o desenvolvimento em linha; geralmente com uma via central que funciona como estrutura principal em torno da qual se desenvolvem ramos secundários:



Água & Energia

Depois, de estabelecido como seria o tráfego pela cidade, aí instalamos as estruturas para prover água, ladeando as avenidas:



O videojogo simplifica deveras colocando o abastecimento e o tratamento do esgoto numa única instalação. Então, exploramos outras imagens para visualizarmos cada um:



Em seguida, instalamos a estrutura que vai prover energia ao município. O vídeo tutorial indicou o carvão, mas, nós resolvemos montar uma hidrelétrica, para termos uma ideia de como é realizado o abastecimento da cidade em que moramos:



Aprendemos que o carvão mineral, que possui cor preta, é uma rocha sedimentar, encontrada em jazidas localizadas no subsolo terrestre, e é extraído pelo sistema de mineração. O carvão, ao ser queimado, libera altas quantidades de energia, por isso é muito usado em usinas termoelétricas e indústrias de siderurgia. O esquema abaixo demonstra como é extraído e seu ciclo: (1) converte a energia térmica gerada pela queima de combustível em energia cinética do vapor d’água em movimento; (2) converte a energia cinética do vapor d’água em energia cinética na turbina; (3) converte a energia cinética da turbina em energia elétrica no gerador:



Nós não optamos pelas fontes de energia supostamente verdes, como eólica e solar depois que vimos o documentário “Planet of the Humans” (Planeta dos Humanos) Duração: 1 h 40 min; Origem e lançamento: EUA, lançado em 20.04.2020; Classificação: documentário sobre economia; Produtor: Michael Moore; Direção: Jeff Gibbs. | Martin, Chris. Wind Turbine Blades Can’t Be Recycled, So They’re Piling Up in Landfills. Bloomberg [Disponível em http://bitly.ws/eXww consultado a junho de 2021]. |E, depois, que nós lemos os artigos relacionados a seguir. Rees, William. Don’t Call Me a Pessimist on Climate Change. I Am a Realist: The modern world is deeply addicted to fossil fuels and green energy is no substitute. [Disponível em http://bitly.ws/eXwG consultado a junho de 2021].| Ver também: Temple, James. The $2.5 trillion reason we can’t rely on batteries to clean up the grid: Fluctuating solar and wind power require lots of energy storage, and lithium-ion batteries seem like the obvious choice—but they are far too expensive to play a major role. [Disponível em http://bitly.ws/eXwK consultado a junho de 2021].
Loteamento

O vídeo tutorial recomenda estabelecer o loteamento comercial à margem da principal avenida, com atividades que animam o espaço público (o comércio varejista, bares etc.) -, o loteamento residencial atrás - nas ruas secundárias, com uma distância mínima entre viver e áreas de funcionamento - e o loteamento industrial - relativamente afastado do residencial, por conta do tráfego, ruído e poluição, e isso tudo levando em consideração os chamados princípios do zoneamento, que são respectivamente: morar, trabalhar, recrear e circular:



Aprendemos que o parcelamento do solo do município é da responsabilidade da secretaria e vai definir seus espaços. O espaço urbano (comercial e residencial) é onde fica a sede do município, independente do número de habitantes que possa ter. O espaço industrial é principalmente destinado às instalações de indústrias. E o espaço rural (ou o campo) é onde ficam as chácaras, granjas, sítios e fazendas. As zonas rurais prestam serviço para abastecimento às zonas industriais e às zonas urbanas, além de plantarem e criarem para a própria subsistência também. Portanto, a área do campo é responsável pelo setor primário da economia de um município, onde se concentra a pecuária, silvicultura, caça, pesca, agricultura e mineração. A área da indústria é responsável pelo setor secundário que transforma os recursos naturais do setor primário em mercadorias, bens e produtos que serão comercializados posteriormente no setor terciário. Indústrias e produção de fábricas são as atividades que se destacam no setor secundário. A cidade é responsável pelo setor terciário, é o setor da economia que envolve a comercialização de produtos em geral, e o oferecimento de serviços comerciais, pessoais ou comunitários, a terceiros.



Fonte: https://economia.culturamix.com/
Saúde & Educação

Seguimos o vídeo tutorial e construímos as escolas e centros de saúde nos locais indicados. Mas, em um município de verdade, escolher a localização de centros educacionais (instituições de ensino infantil, fundamental, médio e superior) e de saúde (clínicas, postos, hospitais etc) requer um estudo aprofundado e criterioso por parte da prefeitura, é preciso levar em consideração vários fatores, como, por exemplo, para citar alguns: a proximidade de centros de combate a incêndios, preços dos terrenos, distância de outros hospitais, distância de centros educacionais, densidade populacional, distância de gabinetes, vizinhança de parques, distância do centro urbano, distância de locais industriais, acesso à rede, os requisitos de comunicação. 

Além disso, são necessárias avaliações quantitativas e qualitativas para estabelecer uma matriz de compatibilidade, uma matriz de utilidade, uma matriz de capacidade e uma matriz de dependência. E manter estes serviços rodando em um município requer um quadro de funcionários respeitável, além de uma boa parcela do orçamento da prefeitura. Sistemas de saúde com bom funcionamento melhoram a saúde da população, protegem as pessoas de dificuldades financeiras quando estão doentes e respondem às expectativas legítimas da população relacionadas a benefícios e serviços.

Segurança

O videojogo coloca sob a aba de segurança: a polícia e o corpo de bombeiros. Entendemos que a segurança pública é uma responsabilidade de todos, cada esfera do governo tem o compromisso de realizar investimentos para melhorar esta área. O governo federal é responsável por executar o policiamento das fronteiras, realizar o patrulhamento das rodovias federais, e lamentavelmente, combater o tráfico internacional e interestadual de drogas, ao invés de investir em regulamentar as drogas. Os governos estaduais são responsáveis pela manutenção e organização das polícias Militar e Civil, assim como dos outros órgãos que investigam os crimes comuns.

Aprendemos que o governo municipal pode desenvolver ações de prevenção à violência, por meio da educação e da instalação dos equipamentos públicos, como iluminação e câmeras. Além disso, também pode criar guardas municipais para a proteção de bens, serviços e instalações. Uma boa manutenção da cidade contribui para a inibição da criminalidade.

A seguir uma sequência de fotos que tiramos de como ficou nossa primeira cidade no Cities Skyline:




Democracia

Nós aproveitamos a oportunidade para aprender sobre o que é uma democracia e o que é a liberdade em uma democracia. Meus pais usaram como referência o livro “Economic Democracy” por Robin Archer. A seguir um resumo com os principais trechos que nos orientaram em nossas conversas. 

De acordo com o autor: “[...] a liberdade de um indivíduo depende da gama de opções de ação que estão abertas para esse indivíduo. Uma restrição limita a liberdade de ação de um indivíduo porque o torna impossível para ele ou ela agir de uma certa maneira. Mas uma restrição não é a única coisa que pode fazer isso. Para poder realizar a ação, o indivíduo também deve ter certos meios ou recursos. A menos que esses meios estejam disponíveis, ele ou ela ainda não será livre para agir, mesmo na ausência de quaisquer restrições impostas. Alguns meios básicos, como comida, roupas e abrigo, são um pré-requisito para realizar quase qualquer ação. Outros meios mais especializados são apenas um pré-requisito para a realização de ações específicas. Pode ser que ninguém tenha permissão para intervir para impedir que uma pessoa pobre leve uma queixa ao tribunal. Mas sem acesso a recursos legais, ele ou ela ainda não poderá fazê-lo. A liberdade de levar uma queixa ao tribunal requer tanto a ausência de restrições (como prisão arbitrária) quanto a disponibilidade de meios (como assistência jurídica).

[...]

Vimos que subjacente ao conceito de liberdade está o valor da autonomia: ou seja, o valor que atribuímos a fazer nossas próprias escolhas e sermos capazes de agir sobre elas. Uma das principais razões pelas quais valorizamos a autonomia é porque o potencial para fazer essas coisas é comum a todos os seres humanos e nos distingue de outros seres. Como critério para julgar a desejabilidade moral das instituições sociais, minha autonomia é importante não porque é minha, mas porque é uma expressão do fato de que sou um indivíduo que tem esse potencial e que, portanto, compartilha uma humanidade comum. Mas se é porque sou um indivíduo que tem esse potencial que valorizo ​​minha autonomia, então a consistência exige que eu valorize a autonomia de todos os outros indivíduos que têm esse potencial. Justamente porque esse potencial é um potencial humano comum e distinto, todos os outros indivíduos o possuem. E assim devo valorizar a autonomia e, portanto, a liberdade de cada indivíduo humano. Agora é possível argumentar que, embora todos os indivíduos tenham esse potencial, eles o têm em graus diferentes e, portanto, embora devamos valorizar a liberdade de cada indivíduo, não devemos valorizá-la igualmente. Presumivelmente, o potencial em questão – ou seja, o potencial para fazer escolhas e agir sobre elas – varia de indivíduo para indivíduo. Mas isso não é motivo para menosprezar a liberdade de alguns indivíduos. Pois o que valorizamos é o que todos nós (exceto alguns loucos) compartilhamos: ou seja, a presença desse potencial em pelo menos um grau mínimo. Concentrar-se nesse potencial mínimo nos permite tirar a conclusão mais forte de que devemos valorizar igualmente a autonomia de cada indivíduo humano e, portanto, que todos os indivíduos devem ser igualmente livres.

[...]

'Embora os indivíduos presumivelmente tenham capacidades variadas... esta não é uma razão para privar aqueles com uma capacidade menor... Uma vez que um certo mínimo é alcançado, uma pessoa tem direito a liberdade igual a todas as outras'. Mas se todo indivíduo deve ser igualmente livre (mesmo que todos sejam um pouco livres), então a liberdade de nenhum indivíduo pode ser ilimitada. Pois o exercício da liberdade de um indivíduo pode, às vezes, afetar adversamente a liberdade de outro. No extremo, não se pode permitir que nenhum indivíduo mate outro indivíduo, pois isso impediria completamente a liberdade deste último. Mas também não é aceitável uma distribuição equitativa indevidamente espartana da liberdade. Ao contrário, cada indivíduo deve ter o máximo de liberdade compatível com uma liberdade igual para todos os outros. E assim, finalmente, temos o princípio da liberdade igual.

[...]

O que nos leva a necessidade de cooperação com os outros. Assim, aqui, a proposição de que os indivíduos humanos têm uma natureza inerentemente social equivale apenas à proposição de que, para alcançar alguns de nossos fins, precisamos da cooperação de outros. Isso é confirmado por uma série de atividades cotidianas. Mesmo atividades aparentemente solitárias, como escrever um livro depende, no mínimo, da colaboração de quem produz lápis e papel. Indivíduos que estão cooperando uns com os outros precisam coordenar suas atividades. Eles podem fazer isso por coordenação de mercado ou coordenação associativa (ou burocrática), ou por uma combinação dessas duas alternativas "puras". Agora há quem acredite que a coordenação de mercado deve ser adotada sempre que possível. Mas mesmo esses crentes teriam que concordar que a coordenação social é a única ou pelo menos a melhor maneira de coordenar certas atividades. Mais adiante, examinaremos mais de perto as razões para isso no caso das firmas econômicas. Nesse tipo de casos, se a cooperação deve ser mantida ao longo do tempo para alcançar um fim comum, então os cooperadores formarão uma associação. Cada associação tem um propósito (derivado do fim ou fins comuns dos indivíduos que a fundaram) e um conjunto de regras que governam como ela perseguirá esse propósito. Devido à ampla gama de propósitos sobre os quais os indivíduos precisarão cooperar, haverá inevitavelmente um grande número de diferentes associações.

[...]

Agora quero considerar duas consequências que decorrem da relação entre o princípio da liberdade igual e o axioma da sociabilidade. A primeira diz respeito ao porquê valorizamos a fraternidade. A segunda diz respeito ao motivo pelo qual valorizamos a democracia.

O ponto sobre a fraternidade pode ser feito brevemente. Uma vez que há momentos em que precisamos de formas associativas de cooperação com os outros para podermos agir sobre as nossas escolhas (segundo o axioma da sociabilidade), e porque valorizamos poder agir sobre as nossas escolhas (segundo o princípio de igual liberdade), portanto, pelo menos nesses momentos, devemos valorizar formas associativas de cooperação com os outros. Isso ajuda a explicar por que a fraternidade não é apenas um fato, mas também um valor ao lado da liberdade e da igualdade em uma democracia. Também ajuda a mostrar de onde vem o 'social' em 'socialismo' de uma democracia social. Não é que exista alguma entidade social supra-individual que seja valorizada per se, da mesma forma que a nação é valorizada pelo nacionalista, ou a tradição é valorizada pelo conservador. Para o socialista, o valor da cooperação social pode ser derivado do valor fundamental ligado à liberdade de todos os indivíduos humanos. A cooperação social, incluindo formas associativas, é valorizada porque às vezes é uma condição necessária para a liberdade individual.

[...]

O ponto sobre a democracia é central para o meu argumento e, portanto, vou me deter um pouco mais nele. Sabemos (pelo axioma da sociabilidade) que, para realizar suas escolhas, os indivíduos às vezes requerem a cooperação de outros, e que às vezes isso requer a formação de associações. O objetivo de formar essas associações é coordenar as atividades dos indivíduos cooperantes. Mas, para fazer isso, a própria associação deve ser capaz de fazer escolhas. Como devem ser feitas essas escolhas coletivas? Sabemos que (para serem compatíveis com o princípio da igualdade de liberdade) as escolhas coletivas devem ser feitas de modo a maximizar a liberdade individual. E (de nossa interpretação desse princípio) sabemos que sou livre quando posso fazer minhas próprias escolhas individuais e agir de acordo com elas. Agora, claramente, as decisões de uma associação, ou melhor, as ações que resultam dessas decisões, afetarão vários indivíduos. Se eu for um desses indivíduos, a única maneira de maximizar minha liberdade é garantir que as escolhas e, portanto, as ações da associação estejam de acordo com minhas próprias escolhas. E a única forma de garantir isso é controlando o processo decisório da associação. Para controlar o processo de tomada de decisão de uma associação, devo garantir que ninguém que discorde de mim possa afetar o resultado desse processo. Colocar-me como ditador seria uma maneira de conseguir isso. Garantir que eu fizesse parte de uma maioria permanente seria outra. De qualquer forma, eu garantiria que tivesse o máximo de liberdade individual, mas apenas negando uma liberdade semelhante a outros indivíduos. Só que o princípio da liberdade igualitária nos compromete a atribuir tanta importância à liberdade de todos os outros indivíduos quanto à minha própria. Isso significa que cada indivíduo afetado deve estar preparado para aceitar menos do que o máximo de liberdade individual, pois claramente não é possível para cada indivíduo afetado por uma associação simultaneamente exercer controle total sobre ela. Se a liberdade que ganhamos ao controlar o processo de tomada de decisão de uma associação for compatível com uma liberdade igual para todos os outros indivíduos afetados por esse processo, então esse controle só pode ser parcial e deve ser compartilhado com todos os outros indivíduos afetados. Em outras palavras: todos os indivíduos cuja capacidade de fazer escolhas e agir sobre elas é afetada pelas decisões de uma associação devem compartilhar o controle sobre o processo pelo qual essas decisões são tomadas. Chamarei isso de 'princípio de todos os afetados'.

[...]

Todo aquele que é afetado pelas decisões de um governo deve ter o direito de participar desse governo, onde por governo ele significa o governo de qualquer associação; não só do Estado-Nação. O princípio de todos os afetados fornece uma resposta para a questão mais fundamental que confronta qualquer teoria democrática. A democracia é, por definição, o governo do povo. Uma teoria da democracia deve especificar como o povo governará – seja por participação direta, representantes eleitos, referendo ou algum outro meio. As teorias socialistas enfatizaram tipicamente a importância de dar às pessoas oportunidades de participação direta sempre que possível. Mas antes que uma teoria democrática comece a especificar como o povo vai governar, deve especificar quem é o povo. O princípio de todos os afetados fornece uma resposta a esta questão. Toda associação, seja estatal ou fábrica de calçados, deve ser controlada por um grupo formado por todos os indivíduos afetados por suas decisões”.

Emergência e a dinâmica de rede

Aproveitamos também para conversar sobre como videojogos - sejam como apps para tablets, sejam adaptados para computador ou console - como Cities Skyline, SimCity, entre outros, exploram os misteriosos poderes da emergência bottom-up, de acordo com o semioticista Steven Johnson.

“Emergência: A dinâmica de rede em formigas, cérebros, cidades e softwares (Interface) O que têm um comum um formigueiro, o cérebro humano, as cidades e os modernos softwares? Todos são exemplos de sistemas auto-organizados que privilegiam as seqüências, em detrimento da lógica, e nos quais se dispensa a presença de um controle centralizado para haver ação”

Videojogos como Cities Skyline e SimCity são projetados como um sistema emergente, uma vez que a rede de células que estão conectadas a outras células, alteram seu comportamento em resposta ao comportamento de outras células na rede. Por exemplo: um determinado bairro (district) possui vários valores - em função das suas características, proximidade à zona industrial, nível de poluição, de violência, isso tudo vai definir o preço da terra nesse bairro (distrito).

“[...] Como em uma cidade do mundo real, esses valores mudam em resposta aos valores dos quarteirões vizinhos; se o bloco a oeste perder o valor e o vizinho a leste desenvolver uma taxa de criminalidade mais alta, então o bloco atual pode ficar um pouco menos valioso. (Um jogador SimCity sofisticado pode conter o declínio colocando uma delegacia de polícia a dez quarteirões da área deprimida.) Os algoritmos em si são relativamente simples - olhe para o estado de seus vizinhos e mude seu estado de acordo - mas a mágica da simulação ocorre porque o computador faz milhares desses cálculos por segundo. Como cada célula influencia o comportamento de outras células, as mudanças parecem se espalhar por todo o sistema com uma fluidez e definição que só pode ser descrita como natural [...]” (idem).

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