P. Histórias: Como analisamos as histórias?

Desde pequenos, Davi e Ana gostavam de conversar sobre histórias em quadrinhos, séries e videogames. Eles se fascinavam com os personagens, discutiam os enredos e comparavam diferentes universos narrativos. Para mim, isso sempre foi uma oportunidade de aprofundar essas conversas, não apenas como diversão, mas como um exercício de compreensão mais sofisticada das histórias.

Foi assim que comecei a compartilhar com eles o que aprendi sobre Vladimir Propp, Paul Ricoeur e Mikhail Bakhtin. Mas o objetivo nunca foi que decorassem nomes ou teorias. O foco era oferecer ferramentas para que pudessem se aprofundar nas narrativas que tanto amam, e vou falar sobre isso mais abaixo.

Hoje, ao ver Davi e Ana analisando as histórias com profundidade, percebo que essas ferramentas realmente fizeram diferença. Eles não apenas consomem narrativas, mas as desmontam, entendem suas engrenagens e, quem sabe, um dia, criarão as suas próprias.



VLADIMIR PROPP

Vladimir Propp, linguista e estudioso do folclore russo, é conhecido por sua análise das narrativas populares e pela identificação de 31 funções dramáticas que estruturam contos de fadas. Seu trabalho, especialmente em Morfologia do Conto Maravilhoso, serve como um modelo útil para entender histórias em diferentes mídias, como séries, histórias em quadrinhos e videogames.

Ao aplicar Propp a essas mídias, podemos identificar padrões narrativos, arquétipos de personagens e a estrutura dos eventos que impulsionam a trama. Vamos explorar como isso pode ser feito.


1. Identificando as Funções Narrativas em Diferentes Mídias

As 31 funções de Propp descrevem eventos narrativos comuns em contos populares, desde a introdução do herói até a resolução da história. Embora nem todas as funções apareçam em todas as histórias, muitas delas são recorrentes.

Séries de TV

Em séries como Stranger Things, podemos observar funções como:

Ausência de um dos pais ou do herói ("partida") – Eleven foge do laboratório.

Interdição – Os personagens são avisados sobre os perigos do Mundo Invertido, mas não seguem a orientação.

Violação da interdição – Alguém atravessa para outra dimensão ou mexe com algo desconhecido.

Luta e vitória sobre o vilão – Eleven enfrenta o Demogorgon ou Vecna.

Séries episódicas e seriadas seguem variações dessas funções, às vezes em ciclos menores dentro de cada episódio.

Histórias em Quadrinhos

Nos quadrinhos, especialmente nos super-heróis da Marvel e DC, as funções de Propp aparecem constantemente:

O vilão causa dano ao herói ou ao mundo (Batman: O Longo Dia das Bruxas inicia com assassinatos misteriosos).

O herói recebe uma missão (Peter Parker decide usar seus poderes para o bem após a morte do tio Ben).

Ajuda mágica ou aquisição de um objeto especial (Tony Stark constrói a armadura do Homem de Ferro).

Os quadrinhos também utilizam ciclos narrativos longos e eventos recorrentes, como a separação e reunião do herói com aliados.

Videogames

Os videogames estruturam suas missões e desafios de acordo com funções narrativas semelhantes:

Recebimento de uma tarefa/missão – Em The Legend of Zelda, Link precisa resgatar Zelda e deter Ganon.

Teste do herói – O jogador enfrenta dungeons e inimigos antes de conseguir um item essencial.

Derrota do vilão e casamento/recompensa – O final do jogo geralmente envolve uma grande batalha e uma cena de conclusão, como ocorre em The Witcher 3 ou God of War.

Muitos RPGs e jogos de mundo aberto seguem essa estrutura, com missões secundárias que ecoam pequenas funções narrativas dentro da grande narrativa.


2. Os Papéis dos Personagens

Além das funções, Propp identificou sete personagens arquetípicos que aparecem nas narrativas:

1. O Herói – O protagonista que busca algo.

2. O Vilão – O antagonista que cria o conflito.

3. O Doador – Fornece um item ou conhecimento mágico.

4. O Auxiliar – Ajuda o herói na jornada.

5. A Princesa (ou Objeto de Desejo) – O que o herói busca (não precisa ser uma pessoa, pode ser um artefato, uma resposta, um lugar).

6. O Mandador – Aquele que dá a missão ao herói.

7. O Falso Herói – Alguém que tenta tomar o crédito ou enganar o protagonista.

Aplicação nos diferentes formatos

Em Breaking Bad, Walter White pode ser visto como um herói trágico, enquanto Gus Fring é o vilão e Jesse Pinkman oscila entre auxiliar e herói por direito próprio.

Nos quadrinhos da Marvel, Loki encarna o "falso herói" diversas vezes, tentando se passar por aliado.

Nos videogames, o Doador frequentemente aparece como NPCs (como em Dark Souls, onde personagens entregam itens importantes antes de desaparecerem ou morrerem misteriosamente).


3. Usando Propp para Criar e Avaliar Narrativas

Se você está criando sua própria história ou quer avaliar melhor o enredo de uma série, quadrinho ou jogo, seguir a estrutura de Propp pode ajudar a identificar padrões e falhas narrativas. Algumas perguntas úteis:

O protagonista segue uma jornada clara com desafios progressivos?

Quais funções narrativas podem ser identificadas no enredo?

Os personagens desempenham papéis claros dentro do modelo de Propp?

Isso ajuda tanto a compreender o que torna certas histórias eficazes quanto a estruturar narrativas próprias.


Conclusão

As ideias de Vladimir Propp oferecem um mapa poderoso para analisar histórias em qualquer formato. Séries, quadrinhos e videogames usam padrões narrativos recorrentes, e entender isso pode ajudar na apreciação crítica dessas mídias e até na criação de novas histórias. Seja ao explorar os dilemas morais em The Witcher, a construção de personagens em Batman ou a progressão episódica de Stranger Things, Propp continua sendo uma ferramenta valiosa para qualquer análise narrativa.


PAUL RICOEUR 

Paul Ricoeur tem uma abordagem fascinante sobre como construímos sentido através das histórias. Ele vê a narrativa como um processo que estrutura nossa experiência do tempo e da identidade, e defende que o leitor (ou jogador, espectador, fã) participa ativamente na construção da história. Conceitos principais de Ricoeur aplicados ao fandom.


1. A Mimesis Tripla: Como estruturamos o tempo nas narrativas

Ricoeur propõe três níveis de mimesis (imitação) para explicar como entendemos uma história:

Mimesis I (pré-configuração) → O mundo já tem uma organização narrativa antes da história começar.

Mimesis II (configuração) → A história organiza os eventos e dá um sentido para eles.

Mimesis III (reconfiguração) → O leitor/espectador/jogador interpreta a história e traz sua própria visão para ela.

Exemplo no fandom:

Em The Legend of Zelda: Breath of the Wild, o mundo já tem uma história pré-existente (Mimesis I), mas o jogador configura sua própria narrativa ao decidir a ordem dos eventos (Mimesis II). Depois, cada jogador dá seu próprio significado à jornada (Mimesis III), gerando discussões sobre o que certos momentos representam.


2. Identidade Narrativa: Construímos nossa identidade através das histórias

Ricoeur diz que nos compreendemos através de narrativas, tanto pessoais quanto ficcionais.

Fãs muitas vezes usam personagens e universos para explorar sua própria identidade.

Exemplo no fandom:

Muitas pessoas se identificam com o arco de redenção do Zuko (Avatar: The Last Airbender) porque projetam suas próprias experiências de mudança e crescimento nele.

Em Star Wars, debates sobre "quem é o verdadeiro herói" (Luke? Anakin? Rey?) mostram como cada fã traz uma interpretação baseada em suas próprias vivências.


3. Tempo e Narrativa: A forma como a história é contada afeta nossa percepção do tempo

Algumas histórias desafiam a linearidade do tempo e isso impacta nossa experiência.

No fandom, diferentes leituras podem mudar completamente a percepção de um evento.

Exemplo no fandom:

Dark (Netflix) brinca com o tempo, e cada fã precisa montar sua própria compreensão da linha temporal.

Em Undertale, a mecânica de "resetar" o jogo faz com que cada jogador construa sua própria narrativa temporal, diferente da experiência linear tradicional.


Fandom e Hermenêutica de Ricoeur

Ricoeur enfatiza que toda história só existe plenamente quando alguém a interpreta. No fandom, isso se traduz em:

Fan theories: Como cada fã interpreta pistas da história.

Fanfiction: Reconfiguração da narrativa original para novas possibilidades.

Speedruns e gameplay emergente: No caso dos videogames, cada jogador reconta a história de forma diferente.


Analisando com Ricoeur 

Um "esqueleto" de análise baseado no Ricoeur, pode usar essa estrutura:


1. Mimesis I (Pré-configuração) → O que já existe antes da história começar?

Quais referências culturais/históricas estão embutidas?

Qual é o mundo prévio da história? (Lore, contexto, mitologia interna)

Como isso influencia nossa expectativa antes mesmo de ler/jogar/assistir?

Exemplo:

Em The Witcher 3, antes de começarmos o jogo, já existe um mundo cheio de eventos passados (guerras, preconceito contra mutantes, a Caçada Selvagem). Esse pano de fundo afeta como interpretamos as escolhas de Geralt.


2. Mimesis II (Configuração) → Como a história é organizada?

A estrutura é linear ou fragmentada?

Como os eventos são encadeados para criar sentido?

Existem flashbacks, saltos temporais ou múltiplas perspectivas?

Exemplo:

Em Attack on Titan, a narrativa esconde informações cruciais no começo e só as revela depois, mudando a percepção dos eventos. Se a história fosse contada em ordem cronológica, o impacto seria outro.


3. Mimesis III (Reconfiguração) → Como o leitor/jogador interpreta e ressignifica?

Como diferentes públicos interpretam a história de formas variadas?

Como a experiência do espectador afeta a leitura?

Existe espaço para headcanons, fan theories e releituras?

Exemplo:

No fandom de Neon Genesis Evangelion, tem gente que vê o final como um renascimento positivo e outros acham que é puro niilismo. A história "se completa" de formas diferentes dependendo da bagagem emocional de quem assiste.


Resumo prático para análise com Ricoeur

1. O que já existe antes da história começar? (Mimesis I)

2. Como a história organiza os eventos? (Mimesis II)

3. Como o público interpreta e ressignifica? (Mimesis III)

Dá para usar isso em qualquer narrativa—de mangá a videogame e até na vida real. 


Ricoeur e técnicas narrativas pós modernas 

Eu concentrei nas técnicas narrativas pós modernas, então, Mimesis II do Ricoeur tem tudo a ver com as técnicas narrativas pós-modernas, porque ambas questionam a ideia de uma estrutura narrativa fixa e linear. Enquanto o estruturalismo (como o do Propp) tenta mapear padrões universais, o pós-modernismo bagunça tudo, brincando com a forma e a percepção da história. Aqui estão algumas conexões entre o Mimesis II e as técnicas narrativas pós-modernas:


1. Fragmentação e Quebra da Linearidade

O Mimesis II mostra que a forma como organizamos a história altera seu significado. No pós-modernismo, isso é levado ao extremo com estruturas narrativas não lineares, múltiplos pontos de vista e tempos misturados.

Exemplo: Westworld (HBO) mistura presente, passado e memórias de forma que só no final entendemos a sequência real dos eventos.


2. Metaficção e Autorreflexividade

Ricoeur já sugeria que a narrativa é um processo de construção de sentido. O pós-modernismo leva isso mais longe ao expor a própria construção da história dentro da história.

Exemplo: Deadpool quebra a quarta parede e conversa com o público, deixando claro que ele sabe que está em uma história.


3. Multiplicidade de Perspectivas

No Mimesis II, os eventos podem ser apresentados de diferentes formas dependendo da organização da história. O pós-modernismo intensifica isso com narrativas caleidoscópicas, onde cada personagem ou mídia conta uma versão diferente da mesma história.

Exemplo: The Witcher (Netflix) confunde o espectador ao mostrar eventos de tempos diferentes sem deixar claro no começo.


4. Narrador Não Confiável e Ambiguidade

O Mimesis II destaca como a forma de contar influencia o significado. O pós-modernismo usa narradores duvidosos, que distorcem ou omitem informações, deixando o leitor/jogador/espectador na dúvida sobre o que é "verdade".

Exemplo: Bioshock subverte a agência do jogador ao revelar que todas as suas escolhas foram manipuladas desde o começo.


5. Intertextualidade e Remix Cultural

Se a interpretação do público (Mimesis III) reconfigura a história, o pós-modernismo já assume que tudo é remixado e cheio de referências.

Exemplo: Everything Is a Remix, o documentário que você e o Davi assistiram, mostra como a cultura pop é baseada na reinterpretação de elementos anteriores.


Conclusão

O Mimesis II do Ricoeur não só ajuda a entender as narrativas tradicionais, mas também serve como uma ótima ferramenta para analisar histórias pós-modernas. O que diferencia o pós-modernismo é que ele não só reconhece a construção da narrativa, mas escancara esse processo e faz disso parte da experiência.


MIKHAIL BAKHTIN 

Agora vamos para Mikhail Bakhtin, que é o cara da narratologia sociocultural. Diferente do Propp (estrutura fixa) e do Ricoeur (interpretação do leitor), o Bakhtin vê a narrativa como um fenômeno social e dialógico—ou seja, ela sempre surge de um contexto cultural e está em constante diálogo com outras vozes. Os Conceitos-Chave de Bakhtin na Narrativa.


1. Dialogismo – Toda História é um Diálogo

Nenhuma narrativa existe isolada. Sempre está em diálogo com outras histórias, discursos e perspectivas.

As vozes dos personagens, do autor, do público e da cultura entram em conflito e se influenciam.

Exemplo: One Piece mistura elementos de narrativas clássicas de piratas, shonen e até mitologia global, criando uma conversa entre gêneros e culturas.


2. Polifonia – Muitas Vozes, Nenhuma Verdade Absoluta

Diferente de narrativas autoritárias (onde só uma visão é válida), uma obra polifônica apresenta múltiplas perspectivas sem que uma anule a outra.

Cada personagem tem sua própria visão de mundo, e o leitor não recebe uma única resposta definitiva.

Exemplo: Game of Thrones – Não há um herói absoluto; cada personagem tem sua verdade, e o leitor decide em quem acreditar.


3. Carnavalesco – A Subversão das Hierarquias

Nas narrativas, o carnavalesco aparece quando normas sociais são invertidas e questionadas.

Há ironia, humor, exagero e caos, desmontando estruturas rígidas de poder.

Exemplo: JoJo’s Bizarre Adventure – Mistura humor, exagero, referências culturais aleatórias e desafia qualquer convenção narrativa ou estética.


4. Heteroglossia – Múltiplos Registros de Linguagem

A língua não é neutra. Ela carrega ideologias, contextos e variações sociais.

Uma obra rica em heteroglossia apresenta diferentes formas de falar, refletindo as diferenças sociais, culturais e históricas.

Exemplo: Persona 5 – Cada personagem fala de um jeito condizente com sua classe social, idade e background, criando uma imersão social mais profunda.


Resumo Bakhtiniano Para Analisar Fandom

1. O fandom é dialogismo puro → Toda fanfic, teoria ou meme conversa com a obra original e com a cultura pop.

2. Polifonia nos fandoms → Diferentes interpretações e headcanons coexistem, sem uma verdade única.

3. O carnavaisco reina no fandom → Cosplay, paródias e ships quebram as normas e desafiam narrativas tradicionais.

4. Heteroglossia nos fanworks → A forma como um fandom escreve e se expressa reflete diversidade linguística e cultural.


Analisando com Bakhtin 

O Propp criou um modelo estruturado e fechado, com funções narrativas fixas para contos de fadas. Já o Bakhtin trabalha de forma mais aberta e interpretativa, focando no contexto social e nas relações entre vozes dentro da narrativa. Mas ele tem ferramentas analíticas, só que são mais flexíveis e qualitativas. Algumas delas:


1. Análise do Dialogismo

Pergunta-chave: Quais vozes estão em diálogo dentro da obra?

Exemplo: Em Attack on Titan, temos o ponto de vista dos Eldianos, dos Marleyanos e dos espectadores. A história não impõe um vilão absoluto; tudo depende da perspectiva.


2. Identificação da Polifonia

Pergunta-chave: Os personagens têm vozes próprias ou são apenas porta-vozes do autor?

Exemplo: Em Undertale, os NPCs não são apenas figurantes, mas personagens com motivações e falas únicas, criando uma sensação de mundo vivo.


3. O Uso do Carnavalesco

Pergunta-chave: A obra subverte normas sociais, hierarquias ou gêneros?

Exemplo: The Boys (série e quadrinhos) ridiculariza e inverte os clichês de super-heróis, expondo a corrupção por trás da "justiça".


4. Identificação da Heteroglossia

Pergunta-chave: Como diferentes registros de linguagem refletem hierarquias sociais?

Exemplo: Em Persona 5, adultos usam linguagem formal e burocrática, enquanto os adolescentes falam de maneira informal e cheia de gírias, reforçando o conflito de gerações.


Resumindo:

O Bakhtin não oferece um esquema fechado de análise, como Propp, mas um conjunto de perguntas e perspectivas para entender como as narrativas interagem com a sociedade e entre si.


Bakhtin e técnicas narrativas pós modernas 

O Bakhtin tem muita coisa em comum com as técnicas narrativas pós-modernas, porque ambos rejeitam a ideia de uma narrativa fixa e única. Eles exploram múltiplas vozes, perspectivas e camadas de significado. Paralelos entre Bakhtin e as Técnicas Pós-modernas


1. Dialogismo e Intertextualidade

Bakhtin: Toda história dialoga com outras histórias. Nada surge do nada.

Pós-modernismo: Assume que tudo é remix e referência.

Exemplo: Rick and Morty pega conceitos da ficção científica clássica e os subverte, criando diálogos irônicos com obras como Back to the Future.


2. Polifonia e Narradores Múltiplos

Bakhtin: Várias vozes coexistem sem uma verdade única.

Pós-modernismo: Usa múltiplos narradores e pontos de vista conflitantes.

Exemplo: The Witcher 3 tem escolhas morais ambíguas e personagens com diferentes versões dos mesmos eventos, deixando a interpretação para o jogador.


3. Carnavalesco e Quebra de Regras

Bakhtin: A inversão de normas sociais traz caos e reflexão.

Pós-modernismo: Usa ironia, pastiche e quebra de convenções para criticar a sociedade.

Exemplo: Deadpool tira sarro dos próprios clichês de filmes de herói, tornando a narrativa autorreferente e anárquica.


4. Heteroglossia e Mistura de Registros

Bakhtin: Diferentes grupos sociais falam de jeitos diferentes dentro da obra.

Pós-modernismo: Mistura estilos e gêneros para criar contraste.

Exemplo: BoJack Horseman alterna entre humor pastelão, diálogos filosóficos e drama pesado, criando um choque de tons e registros.


Conclusão

O que o Bakhtin chamou de "dialogismo", o pós-modernismo transformou em "intertextualidade e remix".

O que ele chamou de "carnavalesco", virou "desconstrução e metalinguagem".

Ou seja, as ideias do Bakhtin anteciparam muitas das estratégias narrativas pós-modernas! 


RESUMINDO 

Aqui está a relação entre as técnicas narrativas pós-modernas que nós destacamos aqui neste blogger e as teorias de Paul Ricoeur (subjetividade) e Mikhail Bakhtin (polifonia e dialogismo):


Técnicas narrativas e Paul Ricoeur (subjetividade e identidade narrativa)

Ricoeur se concentra na identidade narrativa como um processo dinâmico, onde a subjetividade se constrói através da interpretação do tempo e da memória. Ele explora como a narrativa molda nossa compreensão do eu e da experiência vivida.

Narradores não confiáveis: Relaciona-se com Ricoeur porque desafia a estabilidade da identidade narrativa e obriga o leitor a reinterpretar os eventos. Isso reflete a ideia de que a identidade é uma construção narrativa sujeita a múltiplas interpretações.

Fragmentação e múltiplas perspectivas: Conecta-se à ideia de que a identidade não é fixa, mas sim um processo contínuo de (re)interpretação. A maneira como diferentes vozes narrativas ou tempos da história se sobrepõem reflete a complexidade da subjetividade.

Metaficção e reflexões sobre o ato de narrar: Paul Ricoeur destaca como a narrativa é um meio de dar sentido ao tempo e à experiência humana. Histórias que problematizam sua própria construção mostram como a identidade e a memória são moldadas pela narração.

Exploração das motivações e subjetividade dos personagens: A desconstrução dos motivos e motivações dos personagens reflete o conceito ricoeuriano de mimesis, em que a narrativa não apenas imita a realidade, mas a reconfigura continuamente.


Técnicas narrativas e Bakhtin (polifonia, dialogismo e carnavalização)

Bakhtin enfatiza o caráter dialógico da linguagem e da literatura, onde múltiplas vozes e perspectivas coexistem sem uma única verdade dominante.

Polifonia e subversão de estereótipos de personagens: Histórias que apresentam múltiplas perspectivas, sem uma única visão autoritativa, dialogam diretamente com Bakhtin. A inversão de papéis e a desconstrução de arquétipos tradicionais reforçam essa multiplicidade de vozes.

Paródias e sátiras de clichês de gênero: São exemplos de carnavalização, um conceito bakhtiniano que envolve a subversão de normas sociais e literárias. A sátira desestabiliza as estruturas fixas, permitindo que novas interpretações emergentes tomem o centro do palco.

Desconstrução da linguagem e experimentação formal: Está alinhada ao dialogismo de Bakhtin, onde diferentes registros, dialetos e estilos entram em conflito dentro do texto, criando múltiplos significados e tensionando as convenções narrativas.

Quebra da quarta parede e participação do leitor: Evoca o conceito de heteroglossia, onde a linguagem nunca é neutra, mas está sempre respondendo a discursos anteriores e antecipando respostas futuras. O leitor se torna parte ativa do diálogo, ampliando a interação entre as vozes do texto.


Em resumo:

Paul Ricoeur se conecta mais às técnicas que lidam com a subjetividade, identidade narrativa e a interpretação do tempo e da memória.

Bakhtin se relaciona com técnicas que exploram múltiplas vozes, dialogismo, carnavalização e a descentralização da autoridade narrativa.



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