Quem somos nós

Somos uma família que desaprendeu para poder aprender de novo. Vivemos entre livros e bichos, memórias e projetos, silêncios e descobertas. Não seguimos um modelo pronto. Fomos construindo — aos tropeços, com amor — um jeito de viver que respeitasse o que pulsa em cada um de nós.


Raquel, eu, a mãe, fui professora, pesquisadora, doutora. Hoje sou também dona de casa, jardineira de rotinas afetivas, e escutadora profissional de perguntas infantis. Descobri que minha maior aula acontece na cozinha, ao lado dos filhos, ou no quintal, com um minipig e algumas galinhas. E que educar com liberdade exige mais preparo do que qualquer plano de aula.


Rodrigo, o pai, é contador de formação e cuidador por vocação. Entre planilhas e boletos, aprendeu a decifrar os silêncios dos filhos, a ouvir sem interromper, a desconstruir a pressa. Foi abrindo mão de certezas para acolher um mundo mais lento, mais sensível, mais caótico — e mais verdadeiro.


Ana nasceu em 2010. Leve como o vento e profunda como um livro difícil, tem olhos que enxergam o que passa despercebido. Autista, sensível, desenhista, leitora de mundos. Gosta de gatos, de chás, de silêncio, de personagens feridos e de músicas que a fazem chorar. Desde cedo, buscou abrigo nas palavras e encontrou força na sua própria escuta.


Davi nasceu em 2011. Um furacão gentil e amoroso, com perguntas demais e tempo de menos. Autista, criativo, elétrico, inventa mundos, teorias e jogos com a mesma facilidade com que esquece onde colocou a escova de dentes. Gosta de gatos, de leite vegetal achocolatado e universos paralelos. Seu hiperfoco, uma linguagem de amor.


Nossa casa é também um laboratório, uma biblioteca, uma toca, uma floresta e, às vezes, um campo de batalha. Não é sempre tranquila, mas é profundamente viva. Aqui, acreditamos que a educação não começa com apostilas, mas com perguntas sinceras. Que o currículo mais potente é aquele que nasce do que nos importa. Que as respostas não precisam vir rápido — e que, muitas vezes, o mais transformador é poder viver as perguntas.


Vivemos em unschooling desde 2018, com suporte institucional da Clonlara School Off Campus. Mas o que realmente nos orienta é a escuta: do corpo, do tempo, das emoções, dos sonhos, das dores. Já atravessamos diagnósticos, perdas, julgamentos, medos e recomeços. E seguimos. Porque o que nos une não é a perfeição, mas a confiança.


Somos uma família que estuda com livros e com os dias. Que acredita no vínculo como base do saber. Que se autoriza a mudar de rota quando a estrada endurece. Que, diante da complexidade da vida, escolhe responder com presença — e não com obediência.


Não somos um modelo. Somos uma experiência. E estamos vivos.

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