P. HQs: A morte compassiva em Sandman

A representação de Morte como uma figura compassiva em Sandman pode afetar a forma como os espectadores percebem a morte de várias maneiras ...

Se devemos meditar sobre a morte, é pelo que ela nos ensina sobre a vida e sobre nós mesmos. Que toda vida está fadada à finitude, à mudança, à impermanência, isso toca em sua essência e não pode ser ignorado. Mais uma razão para dedicar à vida — a própria, a dos outros — todos os cuidados que ela exige. O que poderia ser mais delicado? O que é mais valioso? O que poderia ser mais insubstituível? 
O fato de uma jornada ter um fim não é motivo para não empreendê-la. O fato de nossos entes queridos serem mortais não é razão para não amá-los. Que a vida seja tão curta (e às vezes tão longa...) não é motivo para desprezá-la.

“Todo contentamento mortal é mortal”, escreveu Montaigne. Cabe a nós, portanto, nos contentarmos com ela, em todos os sentidos da palavra. Este prazer presente, esta alegria presente, este amor presente, a morte nada pode fazer contra eles. Eles vão desaparecer? Certamente, como tudo o que é ou passa Mas eles não são menos agradáveis, nem menos alegres, nem menos amorosos. Seriam ainda mais, insisto, pela raridade, pela brevidade conhecida de antemão, pela singularidade. 

André Compte-Sponville

Primeiro, a humanização da morte, ao retratar Morte como uma figura compassiva e até mesmo carinhosa, a série humaniza esse conceito muitas vezes temido e evitado. Eu achei tão legal, e isso, por incrível que pareça, por conta do momento que estamos vivendo aqui em casa, me ajudou a encarar a morte de uma maneira mais positiva e menos assustadora, entendendo-a como parte natural da vida.

Segundo, a aceitação da mortalidade, a compaixão demonstrada por Morte pode transmitir a mensagem de que a morte é inevitável e faz parte do ciclo natural da existência. Eu confesso que isso me incentivou a aceitar a minha própria mortalidade e a valorizar o tempo que tenho na vida.

Terceiro, o conforto em tempos de perda, a representação amorosa de Morte pode oferecer conforto e consolo para aqueles que estão lidando com a perda de entes queridos. Ela mostra que a morte não é necessariamente o fim, mas sim uma transição para algo diferente e, possivelmente, reconfortante. 

É interessante como as crenças sobre a vida após a morte podem causar divisões dentro de uma família, mesmo quando todos compartilham o mesmo ambiente e experiências. É como se cada um estivesse tentando encontrar um conforto pessoal diante do inevitável mistério da morte.

Para o meu irmão, a ideia de que a morte não é o fim, mas sim uma transição para algo diferente e talvez reconfortante, oferece uma sensação de consolo, conforto, continuidade e esperança. É como se houvesse uma narrativa reconfortante de que a vida continua em algum outro plano, que os laços e as experiências compartilhadas não são simplesmente cortados abruptamente.

Por outro lado, pra mim, eu encontro paz na ideia de que tudo acaba com a morte, porque a perspectiva de um fim definitivo pode ser reconfortante, pois elimina qualquer preocupação com o que pode vir depois. A ideia de se tornar um espectro, distante e incapaz de interagir com os entes queridos, pode ser algo perturbador, vocês não acham? Prefiro uma visão onde não há existência após a morte para temer.

É interessante notar como essas diferentes perspectivas refletem não apenas nossas crenças individuais, mas também nossos medos e desejos mais profundos. Enquanto meu irmão busca consolo na continuidade e na possibilidade de um futuro além da vida terrena, eu encontro conforto na ideia de que a morte marca o fim de todas as preocupações, sofrimentos e obrigações.

Apesar das divergências, talvez o mais importante seja respeitar e compreender as crenças um do outro. No final das contas, o que importa é encontrar uma maneira de lidar com a morte que traga paz e conforto, seja através da crença em uma vida após a morte ou na ideia de um descanso eterno. O mais importante é que, mesmo que as crenças difiram, o amor e o respeito mútuos permaneçam inabalados.

Até o momento, a ciência não ofereceu uma resposta definitiva sobre a existência ou não de vida após a morte. As crenças sobre o assunto variam amplamente entre diferentes pesquisas científicas, culturas, religiões e sistemas de crenças, e muitas pessoas encontram conforto em suas próprias interpretações pessoais do que acontece após a morte.

Enquanto a ciência tem explorado questões relacionadas à consciência, à mente e ao cérebro, ainda não há consenso sobre se a consciência pode existir independentemente do corpo ou se há algum tipo de existência após a morte. Portanto, as crenças sobre o assunto permanecem principalmente no domínio da fé, filosofia e especulação.

Essa incerteza pode ser desafiadora para algumas pessoas, mas também deixa espaço para uma variedade de perspectivas e interpretações. Cada um é livre para encontrar conforto e significado nas crenças que ressoam com eles, seja na esperança de uma vida após a morte, na ideia de um descanso eterno ou em qualquer outra interpretação que traga consolo em face do desconhecido.

PARA REFLETIR ...

A minha mãe compartilhou conosco um trecho de um livro de Vladimir Jankélévitch que diz o seguinte: "a morte é um fenômeno biológico, como o nascimento, a puberdade e o envelhecimento; mortalidade é um fenômeno social da mesma forma que nascimento, conjugalidade ou crime. Para o médico, o fenômeno da morte é algo que pode ser determinado e previsto, conforme a espécie considerada, conforme a duração média da vida e as condições gerais do ambiente. A partir do ponto de vista jurídico e legal, a morte é um fenómeno igualmente natural: nas câmaras municipais, o registro mortuário é uma repartição como outra qualquer, a par das outras, uma secção do registo civil, tal como as certidões de nascimento e de casamento. Da mesma forma, as funerárias são um serviço municipal, nem mais nem menos que a rede viária, os jardins públicos ou a iluminação pública; a comunidade está indiferentemente preocupada com maternidades e cemitérios, escolas e hospícios [...] por um lado, a morte é uma notícia que o repórter relata, um acidente que o legista anota, um fenômeno universal que o biólogo analisa. Podendo ocorrer a qualquer hora e em qualquer lugar, a morte pode ser identificada com base em coordenadas de tempo e lugar: são determinações circunstanciais, uma temporal e outra espacial, o que o juiz de instrução tenta estabelecer quando investiga o ubi-quando de a morte". Mas, ao mesmo tempo, esta simples ocorrência não se assemelha a nenhum dos outros fatos do empirismo: é uma ocorrência imensurável e incomensurável com outros fenômenos naturais [...] a morte é principalmente evidência de fato, evidência óbvia e familiar. No entanto, esta evidência, sempre que a encontramos, sempre nos parece igualmente chocante! Nunca aconteceu que um "mortal" não morra, que escape à lei comum, que faça este milagre de viver sempre e nunca desaparecer, que a longevidade, levando-se ao limite ou indo ao infinito, torne-se eternidade: desde que o absoluto pertence a uma ordem totalmente diferente da vida. Então, por que a morte de alguém é sempre algum tipo de escândalo? Por que esse acontecimento tão normal desperta tanta curiosidade e horror em quem o presencia? Como é que, desde que os homens existem, eles morreram, o mortal ainda não está acostumado a esse evento natural e sempre acidental? Por que ele fica surpreso toda vez que uma pessoa viva desaparece, maravilhando-se como se tal evento acontecesse pela primeira vez?".

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