P. Videogame: The Sims4, a ficção da família, e a terapia

Durante as gameplays de The Sims4, com a minha filha Ana, a gente fez um mergulho também pela sociologia, pela psicologia e pela história.

O que foi mais interessante e incrível de ler e descobrir com a sociologia e a história da família, pra nós, é que a família não é um dado natural, mas sim uma instituição histórica e uma construção social—uma "ficção" poderosa, constantemente reforçada por discursos científicos, econômicos e estatais.


Dentre vários autores que estudamos (e sobre os quais já falamos em outras postagens), Deborah Weinstein se encaixa perfeitamente na linhagem de Jacques Donzelot e Viviana Zelizer, mostrando como a expertise profissional (neste caso, a Terapia Familiar) é usada para policiar, normalizar e construir a família burguesa moderna.

A Terapia Familiar como "Polícia das Famílias"

O livro The Pathological Family de Weinstein não está apenas contando a história de uma nova modalidade de terapia; ele está documentando a engenharia social por trás de uma nova norma familiar na América do pós-guerra.

É o estudo de como a psiquiatria e a psicologia se tornaram, após a Segunda Guerra Mundial, o principal mecanismo para definir a família "saudável" e, por exclusão, o que era a família "patológica".

Veja como o livro desvela essa "ficção" e a transforma em um objeto de controle clínico:

1. A Invenção do Paciente Sistêmico (Capítulo 2)

Para que a família se tornasse o alvo do tratamento, os terapeutas precisaram de um novo vocabulário. Eles o encontraram na Teoria dos Sistemas e na Cibernética (inspirados por pensadores como Norbert Wiener).

A Família é um Sistema: A doença mental (como a esquizofrenia) não era mais vista como um defeito cerebral ou uma falha de caráter do indivíduo, mas sim como um sintoma de um sistema familiar disfuncional.

A "Culpa" Científica: O famoso conceito de Duplo Vínculo (Double Bind) — uma comunicação paradoxal que aprisiona o receptor — serviu como a arma intelectual. Ele permitiu aos terapeutas apontar a dinâmica familiar (especialmente a relação mãe-filho) como a causa científica da patologia, transformando a dinâmica familiar em um objeto de intervenção obrigatória.

2. A Construção da Normalidade Através da Observação (Capítulo 4)

Se a família era um sistema, ela precisava ser observada em seu "habitat natural". Este capítulo detalha como os terapeutas inventaram técnicas para criar e reforçar a norma:

O Espelho de Uma Face (One-Way Mirror): A técnica de observar famílias sem que elas soubessem (ou com um consentimento apenas formal) não era apenas um método de treinamento, mas uma forma de produzir dados "científicos" sobre como uma família "deveria" interagir.

O Cinema e a Gravação: Filmar e gravar sessões familiares (o "performance in family research" mencionado no índice remissivo) permitiu a classificação e a criação de tipologias de famílias normais e desviantes, fornecendo uma base empírica para a "ficção" da família ideal.

3. A Família como Instituição Política (Capítulo 1 e 5)

Weinstein mostra que essa nova ciência não era neutra. Ela estava ligada às ansiedades da Guerra Fria: a família nuclear saudável era vista como a célula fundamental da democracia contra o comunismo.

O Capítulo 5, em particular, discute as Visões da Vida Familiar que os terapeutas carregavam, frequentemente baseadas no modelo da classe média branca. Isso levou à patologização e intervenção em famílias de minorias ou de baixa renda, sob o pretexto de "ajuda" ou "saúde mental". Isso é a Polícia das Famílias em sua vertente clínica.

Próximo Passo na Leitura

Para irmos direto ao cerne da pergunta sobre a engenharia social e a construção da ficção familiar, vou focar nas próximas postagens nos capítulos que detalham os mecanismos de normalização:

Capítulo 2: "Systems Everywhere": Para entender como a Cibernética forneceu o vocabulário "científico" para transformar a família em um sistema passível de diagnóstico.

Capítulo 4: Observational Practices and Natural Habitats: Para ver a implementação prática das técnicas de observação (espelhos, gravação) que construíram a distinção entre a família "saudável" e a "patológica".


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