P. Histórias : Confronting the Challenges of Participatory Culture

O livro "Confronting the Challenges of Participatory Culture" de Henry Jenkins discute a cultura participativa e seu impacto na educação e no desenvolvimento das habilidades necessárias para o século XXI. Ele argumenta que a juventude contemporânea não é apenas consumidora de mídia digital, mas também produtora ativa, participando de comunidades, criando conteúdos e moldando fluxos de informação. No entanto, essa cultura traz desafios como o gap de participação (desigualdade de acesso e oportunidades), a falta de transparência na compreensão da mídia e a questão ética sobre o comportamento online.


Principais Ideias do Livro

1. A Cultura Participativa

Os jovens hoje fazem parte de uma cultura onde há baixos obstáculos para expressão criativa e engajamento cívico.

Há apoio mútuo, aprendizado informal e um senso de pertencimento e impacto coletivo.


2. As Formas de Participação

Afiliações: pertencimento a comunidades online (redes sociais, fóruns, jogos).

Expressões: criação de novas formas de mídia (fanarts, fanfics, memes, mods de jogos).

Solução Colaborativa de Problemas: participação em atividades como Wikipedia, ARGs (jogos de realidade alternativa) e crowdsourcing de informações.

Circulação: influência na distribuição de conteúdos, como no caso de blogs, podcasts e curadoria de informações.


3. As Novas Habilidades Midiáticas

Play: experimentação criativa para solução de problemas.

Performance: adoção de identidades alternativas em narrativas digitais.

Simulação: interpretação e criação de modelos interativos.

Apropriação: remixagem e reutilização de mídia.

Inteligência Coletiva: compartilhamento e construção colaborativa de conhecimento.

Navegação Transmídia: capacidade de acompanhar histórias e informações que se desenrolam em múltiplas plataformas.


Como Esse Livro Me Fez Enxergar o Uso do Celular pela Juventude

Antes de ler Jenkins, eu tinha uma visão mais crítica e receosa sobre como os jovens usam o celular. A impressão era que a internet e as redes sociais eram apenas um espaço de distração e superficialidade. No entanto, o livro me fez perceber que o celular é, na verdade, uma ferramenta para participação ativa na cultura digital, aprendizado autodirigido e desenvolvimento de habilidades importantes.


Agora vejo que:

Muitos jovens não estão apenas consumindo conteúdo, mas também criando e participando de redes que ampliam suas competências comunicativas, criativas e sociais.

O tempo na internet pode ser produtivo se for direcionado para práticas participativas, como ilustração digital, escrita de ficção, programação ou mesmo colaboração em comunidades educativas.

A questão não é o uso do celular em si, mas como ele está sendo usado: para passividade ou para engajamento criativo e aprendizado?


Como Ana e Davi Já Estão Inseridos na Cultura Participativa

Lendo Jenkins, percebi que Ana e Davi já participam dessas formas de cultura digital de maneiras autênticas:

Ana no TikTok:

Ela usa o TikTok não para exposição pessoal, mas como plataforma para compartilhar sua fanart dentro das trends da comunidade artística.

Isso se encaixa na forma de expressão criativa mencionada no livro, onde jovens remixam e criam novas mídias para compartilhar com outros.

O TikTok também é um exemplo de circulação de mídia, pois Ana está ativamente influenciando e sendo influenciada pelo ecossistema de criadores.

Davi e a Aprendizagem Colaborativa:

Davi se envolve com jogos e fóruns no Discord onde a resolução de problemas é feita coletivamente, exatamente como Jenkins descreve na seção sobre inteligência coletiva.

Jogos online, como Minecraft e Roblox, permitem que ele experimente simulação e performance, adotando diferentes papéis e estratégias dentro dos ambientes digitais.

Além disso, ambos já estão aprendendo a navegar pela mídia digital de maneira crítica, desenvolvendo um olhar mais analítico sobre informação e interações online.


Desafios 

Os desafios são centrais no livro do Jenkins e impactam diretamente como a Ana e o Davi navegam na cultura digital. Vamos analisar cada um e como eles estão lidando com isso.


1. O Participation Gap (Desigualdade de Acesso e Oportunidades)

Esse problema vai além da falta de acesso à tecnologia. Mesmo quando todos têm internet e dispositivos, há uma diferença enorme no tipo de participação digital:

Alguns jovens usam a internet apenas para consumir passivamente (redes sociais, vídeos, jogos).

Outros aprendem a criar, colaborar e desenvolver habilidades valiosas.

Isso cria uma desigualdade de oportunidades: quem só consome pode acabar ficando para trás em termos de aprendizado e qualificação para o futuro.

Como Ana e Davi lidam com isso?

Ana já usa o TikTok para divulgar suas fanarts. Ela está criando e não apenas consumindo. Davi, com seu interesse em jogos e quadrinhos, também já compartilha suas análises no TikTok. O próximo passo seria aprender mais sobre marketing digital, direitos autorais e como transformar essa participação em algo sustentável (como vender prints ou receber comissões), e isso justamente faz parte do plano de estudos deles para o High School na Clonlara School Off Campus. Nós incentivamos ambos a documentar e compartilhar seus aprendizados online, seja em blogs, vídeos ou fóruns, criando um portfólio digital desde cedo.


2. O Transparency Problem (Falta de Consciência Crítica sobre a Mídia)

Jenkins fala sobre como os jovens, apesar de parecerem nativos digitais, muitas vezes não percebem como a mídia molda a visão de mundo deles.

Por exemplo:

Algoritmos das redes sociais influenciam quais conteúdos aparecem, reforçando bolhas de pensamento.

Muitos jogos e filmes trazem mensagens sutis sobre sociedade, poder, consumo e identidade.

Publicidade disfarçada de conteúdo genuíno (como influenciadores promovendo produtos sem transparência).

Sem essa consciência crítica, os jovens podem acabar manipulados sem perceber.

Como Ana e Davi lidam com isso?

Ana tem estudado para aprender mais sobre como os algoritmos do TikTok influenciam o que ela vê. Isso a ajuda a evitar que sua criatividade seja limitada pelo que está “em alta”. Ela também começou a estudar branding para não ser apenas uma consumidora de tendências, mas alguém que cria sua identidade digital própria.

Davi tem desenvolvido um olhar mais analítico para jogos. Além de jogar, ele já começou a refletir sobre a estrutura dos games: Por que esse jogo me prende tanto? Como as mecânicas influenciam minhas decisões? Isso o ajuda a criar análises de jogos mais bem planejadas.

Nós incentivamos a sempre se perguntar: “Por que estou vendo isso?”, “Quem criou esse conteúdo e com que intenção?”, “Isso reflete a realidade ou é um recorte tendencioso?”.


3. O Ethics Challenge (Comportamento e Responsabilidade Online)

Como os jovens estão cada vez mais expostos e atuando publicamente na internet, eles enfrentam dilemas éticos complexos, como:

Compartilhamento excessivo da vida pessoal sem entender as consequências.

Cultura do cancelamento e linchamentos virtuais.

Uso de conteúdos protegidos por direitos autorais sem permissão.

Desinformação e fake news.

Sem um bom direcionamento, os jovens podem acabar se envolvendo em comportamentos prejudiciais ou se tornando vítimas de situações problemáticas.

Como Ana e Davi lidam com isso?

Ana, ao postar suas fanarts, precisa entender sobre direitos autorais e propriedade intelectual, por isso está inscritas em cursos sobre essas temas. Até onde ela pode se inspirar em obras de terceiros? Como proteger suas próprias criações? Estudar Creative Commons e licenciamento vai ajudá-la a navegar esse ambiente sem riscos.

Davi, ao interagir em comunidades de jogos e quadrinhos, está praticando uma comunicação ética e respeitosa. Isso inclui evitar discursos tóxicos comuns no ambiente gamer e também saber se proteger de ataques ou exploração digital.

Nós conversamos com eles sobre ética digital e damos exemplos reais de criadores que enfrentaram problemas por não entenderem as implicações das suas ações online.


Construindo uma Participação Digital Inteligente

Ana e Davi já estão inseridos na cultura digital de maneira ativa, e ainda podem aprimorar essa participação desenvolvendo: 

✔ Autonomia Digital – Saber usar a internet para criar e não só consumir.

✔ Pensamento Crítico – Identificar manipulações e reconhecer padrões na mídia.

✔ Consciência Ética – Agir de forma responsável, respeitando direitos e limites.

Se conseguirem aplicar essas habilidades, eles não só vão evitar armadilhas da cultura digital, como também vão transformar essa participação em algo que contribua para seu aprendizado, desenvolvimento e até futuro profissional.


Reflexão Final

O livro é espetacular, recomendo a leitura, e me fez perceber que a cultura digital juvenil não precisa ser um problema, mas sim uma oportunidade. Em vez de ver o celular apenas como uma distração, agora vejo que ele pode ser um instrumento poderoso para criatividade, aprendizado e conexão social – desde que haja orientação e consciência crítica.

Essa visão tem impacto direto na forma como eu abordo o ensino de Ana e Davi. Ao invés de tentar limitar ou restringir o uso da tecnologia, posso ajudá-los a usá-la de forma ativa e construtiva, garantindo que desenvolvam as habilidades que Jenkins aponta como essenciais para o futuro.

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