P. Ilustrações: Afrodite

O meu plano de estudos para o primeiro semestre letivo no High School foi World History Through Art. O meu objetivo principal é um estudo da evolução da arte em contextos históricos, com foco em estilos artísticos como reflexo de mudanças sociais, políticas e geográficas. Criar fanarts cartunescas baseadas em períodos históricos específicos. Tópicos abordados: 1) Influência da cultura pop (filmes, séries, jogos) na arte moderna e na fanart.; 2) Evolução da arte popular e seu diálogo com movimentos históricos (ex.: Renascimento, Era Vitoriana, Industrial); 3) Características chave de cada período (ex.: luz e perspectiva no Renascimento, maquinários na Era Industrial).  

Um dos desafios que eu me propus foi buscar uma referência de imagem, preferencialmente de uma mulher da Grécia antiga, para redesenhar no meu estilo cartum e articular com o que a minha mãe compartilhou comigo sobre o livro de Moses Finley "Escravidão antiga e ideologia moderna". Logo, eu escolhi Afrodite.

Minha arte:


Minha referência:


A Grécia Antiga, especialmente aquela que ficou mais registrada pela historiografia tradicional (sobretudo Atenas clássica), era profundamente patriarcal e misógina, apesar de haver nuances importantes dependendo da região, do período e do estrato social. Minha mãe compartilhou trechos de Moses Finley "Escravidão antiga e ideologia moderna", e eu aprendi que Atenas do século V a.C. é celebrada como berço da democracia, mas isso é verdade só se olharmos com lentes bem über seletivas. Quem votava? Apenas homens livres, cidadãos, nascidos de pai e mãe atenienses. Quem ficava de fora? Mulheres (mesmo cidadãs), estrangeiros (metecos), escravizados (que podiam ser a maioria da população) e crianças. Era, na prática, uma oligarquia masculina com participação mais ampla entre um grupo restrito. O sistema “democrático” se sustentava no trabalho escravizado e na exclusão política da maior parte dos habitantes da pólis. Essa contradição é que torna difícil engolir o elogio simplista à democracia ateniense sem falar de suas fundações profundamente injustas.

E Afrodite, deusa do amor, do desejo e da sexualidade, é uma figura que, à primeira vista, parece celebrar o poder feminino — mas na prática sua imagem era moldada por um olhar masculino e patriarcal.

Personificação do desejo. Afrodite representava o eros que move e desestabiliza, capaz de influenciar deuses e mortais. Esse poder, porém, era frequentemente narrado como perigoso, enganador ou manipulador — reforçando o estereótipo de que a sexualidade feminina era algo a ser controlado.

Controle simbólico. Embora fosse cultuada com grande devoção, especialmente em rituais ligados à fertilidade e à união conjugal, Afrodite raramente é mostrada como agente política ou guerreira (ao contrário de Atena ou Ártemis). Sua esfera era restrita ao amor e à beleza, reforçando o enquadramento da mulher como corpo e sedução.

Ambiguidade social. Havia festivais em sua honra (como a Aphrodisia) onde mulheres podiam circular mais livremente, mas mesmo esses momentos estavam cercados por normas religiosas e sociais que devolviam as mulheres ao controle masculino.

A prostituição sagrada em alguns templos ligados a Afrodite também mistura poder e exploração — havia mulheres independentes (hetairas) que se vinculavam ao culto, mas também escravas sexuais controladas por homens.

Na prática, Afrodite servia como: 1) Canal seguro para lidar com o desejo feminino sem que isso ameaçasse a ordem patriarcal — porque estava sob a moldura do mito e do culto. 2) Justificativa simbólica para a beleza e sexualidade serem atributos centrais na definição de valor de uma mulher. 3) Zona controlada onde a mulher podia ser “poderosa” — mas apenas dentro do jogo masculino de desejo e posse.

Ou seja, Afrodite, na sociedade misógina e escravocrata da Grécia Antiga, era uma figura de poder simbólico feminino, mas domesticada e utilizada para reforçar papéis de gênero restritos. Ela encarnava o desejo e a fertilidade — forças vistas como essenciais, mas também perigosas, que precisavam estar sob controle masculino. O fato de a “democracia” grega surgir nesse contexto só revela que a liberdade celebrada pelos gregos sempre teve um recorte muito estreito e excludente.

A distinção entre Afrodite Urânia e Afrodite Pandemos é uma das chaves mais reveladoras para entender como os próprios gregos negociavam o significado do feminino e da sexualidade. Essa divisão aparece em autores como Platão (Banquete), Pausânias e outros, e é muito mais do que um detalhe religioso: ela é uma forma de classificar, hierarquizar e controlar o eros.


Afrodite Urânia (“Celestial”)

Ligada ao amor espiritual, intelectual, “puro” — supostamente isento de desejo carnal descontrolado.

Representaria o eros que busca a beleza e a virtude da alma, não apenas do corpo.

Em alguns discursos, associada a amores entre homens (particularmente o modelo idealizado de pederastia pedagógica) e ao amor conjugal que reforça a honra familiar.

Simbolicamente: domesticação do desejo, elevação moral.


Afrodite Pandemos (“Comum” ou “do povo”)

Ligada ao desejo físico, à atração erótica que envolve todos, indistintamente.

Associada à sexualidade “baixa”, carnal, considerada menos nobre.

Também ligada a prazeres populares e festivais, e à prostituição.

Simbolicamente: corpo, instinto, mistura social.


📌 Essa classificação serve como mecanismo ideológico

O desejo “bom” (Urânia) é aquele que se encaixa na ordem social e no controle masculino; o desejo “perigoso” (Pandemos) é desvalorizado, associado ao feminino “indomado” ou à sexualidade fora do casamento. Assim, aparentemente, até a deusa do amor era dividida para servir à hierarquia patriarcal.

Ao separar Afrodite em duas faces, os gregos conseguiam manter a sexualidade como parte central da vida e do culto, mas sob uma lógica de moralização e hierarquização.

É quase como se dissessem: “Existe o eros civilizado, que reforça a pólis, e o eros perigoso, que ameaça a ordem.”

Isso ecoa em toda a tradição ocidental, onde o amor feminino é frequentemente dividido entre “puro” e “pecaminoso” (Maria e Madalena no cristianismo são um eco dessa lógica).


Referências bibliográficas

Aqui vão algumas fontes acadêmicas e traduções comentadas que exploram Afrodite e esse contexto:

Fontes primárias:

Platão. O Banquete (especialmente o discurso de Pausânias sobre as duas Afrodites).

Pausânias. Descrição da Grécia (livro I e IX, referências a cultos de Afrodite).

Hesíodo. Teogonia (linhas 188–206: nascimento de Afrodite).

Homero. Hino Homérico a Afrodite.

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