P. Videogames: Brasil no Minecraft - parte 3

A "Modernização" que Chegou com a Corte Portuguesa: Progresso para Quem?

Depois do período inicial de colonização, que foi marcado pela violência contra os povos indígenas e a escravidão africana, o Brasil viveu outro momento decisivo com a chegada da família real portuguesa em 1808. É comum ouvir que Dom João VI "modernizou" o Brasil ao fugir de Napoleão e se instalar no Rio de Janeiro — mas a pergunta que precisamos fazer é: modernização para quem, e a que custo?

A abertura de instituições como a Biblioteca Nacional, a Imprensa Régia, o Jardim Botânico e os teatros trouxe, de fato, um ar de sofisticação à capital do Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves. No entanto, é crucial entender que essas melhorias não eram para todos. Enquanto a elite branca da corte frequentava espetáculos no Real Teatro São João e pesquisava plantas no Jardim Botânico, a imensa maioria da população — composta por pessoas escravizadas, libertas e pobres — seguia excluída, sem acesso a direitos básicos, sob o jugo de um sistema profundamente desigual.

A Imprensa Régia, por exemplo, não era um espaço de liberdade: toda publicação era controlada pela Coroa. A Gazeta do Rio de Janeiro, o primeiro jornal impresso no país, servia como instrumento de propaganda do governo — longe de ser uma fonte de informação livre e crítica.

Além disso, muitas dessas obras foram financiadas com recursos retirados da colônia — ou seja, do trabalho não remunerado de milhares de pessoas escravizadas —, e seu objetivo principal não era educar ou emancipar a população, mas atender aos interesses da corte e de uma pequena elite local. Enquanto belos edifícios surgiam na cidade, a economia do país continuava dependente do trabalho escravo, e a desigualdade entre campo e cidade se aprofundava.

No Minecraft, quando reconstruímos a Biblioteca Nacional e o Jardim Botânico, foi possível imaginar a grandiosidade desses espaços. Mas também refletimos: quem podia entrar neles? Quem era bem-vindo? E o que significava "progresso" em um país onde a maioria da população ainda era tratada como propriedade?

A leitura de autores como Laurentino Gomes nos ajuda a entender essa época de forma acessível, mas é importante ir além da superfície: a vinda da corte aprofundou a centralização do poder, a desigualdade social e a estrutura escravocrata — problemas que deixaram marcas profundas no Brasil até os dias de hoje.

Foi, sim, uma viagem incrível pela história — mas uma viagem que nos lembra que o "progresso" sem justiça social não é progresso; é apenas mais uma forma de perpetuar privilégios.



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