P. Videogames: GTA e as ficções que nos organizam
Sabe, quando eu joguei GTA com os meus pais, no meio da zoeira, conversamos muito sobre uma coisa que pouca gente percebe quando joga. Já repararam que a cidade do jogo parece bem injusta? Tem gente muito rica, gente muito pobre, políticos corruptos, polícia que às vezes ajuda, às vezes atrapalha... Pois é. Isso não é só no jogo, não. Acontece no mundo real também.
A gente começou a conversar sobre como alguns países e até impérios do passado funcionam meio como grandes gangues disfarçadas: eles pegam uma parte enorme do que as pessoas trabalham pra ganhar e jogam esse dinheiro lá pra cima, pros mais ricos. Só uma migalhinha volta pro povo, tipo escola, hospital e segurança. E aí surgiu uma pergunta bem séria: “Mas por que as pessoas aceitam isso?”
A resposta é meio doida, mas faz muito sentido. É porque nós, seres humanos, somos animais que vivem de histórias. Isso mesmo, histórias! A gente acredita em coisas que, na prática, são inventadas, mas que todo mundo combinou de acreditar. Por exemplo: dinheiro. Pensa bem... dinheiro é só um papel ou um número numa tela. Mas porque todo mundo acredita que aquilo vale, ele realmente vale.
O mesmo acontece com países. Quando você olha no mapa e vê aquelas linhas dividindo os países, aquilo não existe de verdade na natureza. São linhas inventadas. E por que a gente acredita nessas linhas? Porque todo mundo combinou, contou a mesma história e acreditou junto.
Um historiador que os meus pais leram conosco, chamado Yuval Harari explica que, antigamente, quando éramos só caçadores e coletores, vivíamos em grupinhos bem pequenos, de poucas pessoas. A gente se conhecia, confiava um no outro. Mas depois que a população começou a crescer muito, não dava mais pra conhecer todo mundo. Então as pessoas começaram a criar essas histórias que todo mundo acredita junto. Tipo: “somos brasileiros”, “somos cidadãos”, “temos leis”, “esse dinheiro vale”, “essa bandeira representa a gente”. E assim, mesmo sem se conhecer, milhões de pessoas conseguem viver mais ou menos em ordem... ou, pelo menos, tentando.
Outro cara que os meus pais falaram pra gente é o Benedict Anderson, ele também falou dessas ficções. Ele disse que uma nação, tipo o Brasil, é uma “comunidade imaginada”. Isso quer dizer que a gente se sente parte desse grupo — mesmo sem conhecer a maioria das pessoas — só porque acredita na mesma história. Tipo torcer pro mesmo time, sabe? Você vê alguém com a mesma camisa e pensa: “é dos meus”.
E aí, voltando pro GTA, a gente percebeu que o jogo é, na verdade, uma baita crítica a tudo isso. A cidade do jogo tem regras, leis, polícia, governo... mas também tem um monte de gente burlando tudo, tentando ganhar dinheiro, fazer acordos, fugir da polícia, se dar bem. E olha que curioso: até dentro do mundo do crime, as pessoas só conseguem fazer grandes assaltos e planos porque confiam numa história em comum. Uma promessa, um contrato, um acordo.
Mas o mais legal (ou mais triste, depende do ponto de vista) é perceber que a cidade do GTA é uma invenção... assim como as nossas cidades de verdade também são, de certo modo, invenções. Claro que as ruas, as casas, as pessoas existem, mas as regras que dizem quem manda, quem obedece, quem é dono do quê... tudo isso é uma história que foi inventada e que todo mundo finge que é verdade pra vida funcionar.
Então, no meio do jogo, além de dirigir carros, fugir da polícia e fazer missões, dá pra pensar em coisas bem profundas, como:
👉 Quem inventou essas regras?
👉 Elas são justas?
👉 Por que todo mundo obedece?
👉 E... será que dá pra imaginar outras regras, outros jeitos de viver?
No fim, percebi que jogar GTA também pode ser um jeito de filosofar. E que, no fundo, o mundo inteiro é meio que um jogo... mas jogado de verdade.
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