P. EaD: Qual Propósito da Propriedade Intelectual?

Realizar o curso do enap de noções de direitos autorais e ler trechos do livro Against intelectual monopoly foi uma excelente oportunidade para ter uma conversa rica e aprofundada com meus filhos, Davi e Ana, sobre um tema que impacta diretamente a vida deles. O curso da ENAP forneceu a base legal, enquanto o livro de Boldrin e Levine oferece uma crítica radical e um ponto de vista totalmente diferente.

Então, comparando as duas abordagens ...

1. O Propósito da Propriedade Intelectual

  • Visão do curso da ENAP: A Lei de Direitos Autorais existe para proteger e recompensar o criador, garantindo a ele tanto os direitos morais (a ligação inalienável com sua obra) quanto os direitos patrimoniais (a capacidade de monetizar sua criação). O sistema é visto como uma forma de incentivar a criatividade.
  • Visão do livro: O livro argumenta que o que chamamos de "propriedade intelectual" é, na verdade, um monopólio intelectual. Esse sistema não incentiva a inovação, mas a sufoca, pois impede que outras pessoas construam livremente sobre as ideias existentes. O livro questiona se o sistema é realmente necessário para a inovação.

Para conversar: O curso ensinou que a lei protege o criador para que ele ganhe dinheiro com a sua arte. O livro, por outro lado, diz que essa lei cria um monopólio que pode até atrapalhar a criatividade. Qual das duas ideias faz mais sentido para vocês? Compartilha aí nos comentários!

Pensando na carreira de ilustradora da Ana, o monopólio a protegeria ou limitaria a criação de outros artistas? Então, chegamos a conclusão por agora que não existe uma resposta única para isso, porque os dois pontos de vista têm seu mérito. Por um lado, o curso está certo: se a Ana se dedicar por horas a uma ilustração, ela merece ter a garantia de que seu trabalho será valorizado e que ela poderá ser paga por ele. A lei de direitos autorais dá essa segurança. Mas o livro nos faz pensar: o que aconteceria se a Ana, para criar sua própria ilustração, precisasse pagar uma taxa toda vez que se inspirasse em uma obra de outro artista? O livro sugere que o 'monopólio' pode travar a criatividade de todo mundo, não apenas proteger a de um indivíduo.

2. A Dinâmica de Criação

  • Visão do curso da ENAP: A criação é vista como um ato individual ou colaborativo (coautoria), onde a obra pertence ao seu criador.
  • Visão do livro: O livro "Against Intellectual Monopoly" destaca que a maioria das inovações e obras são cumulativas e simultâneas. Ideias e invenções não surgem do nada, mas são construídas com base no trabalho de muitos outros. O livro usa exemplos como a invenção da máquina a vapor para mostrar como a patente de James Watt, em vez de acelerar o desenvolvimento, na verdade o atrasou por muitos anos.

Para conversar: Se você faz um vídeo de 'react' ou se inspira em uma trend do TikTok, você está criando algo 100% original ou está construindo em cima do trabalho de outras pessoas? Compartilha aí nos comentários!

O livro sugere que toda a criatividade é assim, construída em cima de outras ideias, como aponta o documentário Remix. Pense na evolução da música. O rock and roll não surgiu do nada, ele foi uma mistura do blues, jazz e country. Os Beatles se inspiraram em Chuck Berry, e bandas mais novas se inspiram nos Beatles. O livro de Boldrin e Levine argumenta que a criatividade funciona assim na maioria das vezes, como uma conversa contínua entre artistas e inventores. A lei de direitos autorais tenta colocar limites nessa 'conversa'. O que o Davi faz no TikTok, por exemplo, é um ótimo exemplo de como a criatividade de hoje em dia é baseada em 'reacts', trends, memes e remixes, o que nos faz questionar se as leis antigas ainda servem para a nossa realidade digital.


3. Limitações e o Uso de Conteúdo

  • Visão do curso da ENAP: As limitações (como o direito de citação, cópia privada e uso didático) são exceções legais que equilibram a proteção do autor com o interesse social. Elas são a forma da lei permitir o "uso justo" sem infringir direitos.
  • Visão do livro: O livro argumenta que essas limitações são insuficientes e que o sistema atual é tão restritivo que impede o fluxo livre de ideias. Ele sugere que, em vez de ter "limitações", não deveria haver monopólio, permitindo que as pessoas construíssem livremente sobre todas as ideias.

Para conversar: O curso ensinou que você pode fazer um react usando um trecho de um vídeo para criticar ou comentar, certo? O livro diria que essa permissão é apenas uma pequena 'escola de samba' no meio de uma 'avenida' totalmente controlada por leis que não fazem sentido. O que vocês acham da ideia de que qualquer pessoa deveria ser livre para usar qualquer conteúdo, desde que dê o crédito, por exemplo? Compartilha aí nos comentários!

Essa pergunta toca no cerne do debate. A lei de direitos autorais, como a gente viu no curso, faz concessões (como a citação) para que as pessoas possam se expressar. Mas o livro vai além e diz que essas concessões são insuficientes. Ele defende a ideia de que o fluxo de ideias deve ser totalmente livre, desde que o criador original seja reconhecido. A discussão é sobre o equilíbrio entre os dois extremos: um sistema que protege o criador a ponto de restringir a criação de outros, ou um sistema que permite a liberdade total, mas que pode dificultar a vida de quem vive da arte.

Concluindo. Esta discussão não só nos ajudou a entender a complexidade do tema, mas também a desenvolver o pensamento crítico, que é um dos objetivos que a gente tem em mente. Ao confrontar o que aprenderam com uma visão oposta, eles poderão ver que o mundo jurídico e econômico não é feito de verdades absolutas, mas de ideias e debates em constante evolução, e, por enquanto, vence o mais forte, as grandes corporações, monopólios e oligopólios.

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