P. Ilustrações: Apropriação na história da arte
A história da arte é, em muitos aspectos, uma longa e intricada conversa através dos séculos, onde cada geração pega os fragmentos deixados pela anterior e os remonta sob a luz do seu próprio tempo. Mas essa conversa nem sempre foi cordial ou equitativa. A questão da apropriação — o ato de tomar para si um elemento cultural ou artístico alheio — é uma sombra que dança à luz dessa evolução, desafiando-nos a perguntar: onde termina a homenagem e começa o saque?
A apropriação cultural e artística ocorre quando há uma tomada, frequentemente por um grupo dominante, de elementos estéticos, simbólicos ou ritualísticos de uma cultura marginalizada ou oprimida, esvaziando-os de seu significado original, contexto e história. Não se trata simplesmente de "inspiração", mas de um poder desigual: o poder de pegar sem pedir, de usar sem entender, e de lucrar sem compartilhar. É transformar algo sagrado em mero ornamento, algo profundamente simbólico em uma fantasia vazia.
Esta linha tênue entre inspiração e plágio é antiga, muito anterior à polêmica atual sobre a Inteligência Artificial. Picasso e os modernistas, no início do século XX, ficaram fascinados pelas máscaras e esculturas africanas. Eles não estavam simplesmente "inspirados"; eles se apropriaram dessas formas, descontextualizando-as de suas funções ritualísticas e espirituais nas culturas de origem para fundar um novo movimento no Ocidente: o Cubismo. A arte africana foi o combustível, mas os artistas europeus colheram a maior parte da glória, sem, por muito tempo, um reconhecimento ou diálogo significativo com suas fontes. Da mesma forma, Duchamp, com seus "readymades", apropriou-se de um mictório ou de uma roda de bicicleta e, ao colocá-los em um museu, questionou radicalmente os próprios conceitos de autoria, originalidade e valor artístico. Ele não plagiava uma obra de outro artista, mas se apropriava de um objeto do mundo, deslocando sua função e forçando-nos a vê-lo como arte. Esses gestos, embora revolucionários, mostram que a apropriação pode ser uma ferramenta poderosa — e controversa — na caixa de ferramentas do artista.
No coração desse debate no mundo contemporâneo está o conceito anglo-saxão de "fair use" ou "uso justo". Ele estabelece que, sob certas condições — como crítica, comentário, paródia ou ensino —, é permitido usar material protegido por direitos autorais sem a permissão do titular. É um princípio que tenta equilibrar a proteção da criação original com a necessidade de liberdade de expressão e inovação cultural.
E é precisamente nesse frágil território do "fair use" que os fandoms constroem sua nação. A fanfic, a fanart e as paródias são, por excelência, exercícios de apropriação criativa. Nós nos apropriamos de personagens, mundos e tramas que não nos pertencem legalmente. Mas o fazemos movidos por um ethos radicalmente diferente do plágio ou da apropriação cultural exploratória. A intenção no fandom não é roubar para lucrar ou para afirmar domínio. É uma economia do afeto, do compartilhamento e da transformação.
Nossas histórias e artes são, em sua essência, um comentário extenso, uma crítica apaixonada e uma longa carta de amor à obra original. A paródia, por exemplo, é um dos pilares do "fair use", pois usa a obra-fonte para ridicularizar ou fazer uma sátira, criando algo novo a partir do reconhecimento do original. Uma fanart que reimagina um personagem sério em uma situação cômica, ou uma fanfic que subverte os temas da narrativa, estão todas participando desse diálogo. O fandom, em sua maioria, não esconde a fonte; ele a celebra e a pressupõe. O crédito é sempre dado, implicitamente, ao mundo que nos inspirou.
A linha, no entanto, pode ficar turva. Quando um fã começa a lucrar significativamente com sua fanart ou fanfic, o princípio do "fair use" pode ser desafiado. E, de forma mais profunda, quando elementos de culturas marginalizadas são usados de forma superficial e estereotipada dentro das narrativas de fãs, repetimos os mesmos erros de apropriação que criticamos na história da arte.
No fim, a jornada da apropriação na arte — dos ready-mades de Duchamp às fanfics publicadas online — nos mostra que a criação raramente surge do vácuo. Ela é um ecossistema de influências. A diferença crucial talvez resida na ética do gesto: no reconhecimento, no contexto, na intenção e no respeito. É a diferença entre um diálogo e um monólogo; entre uma celebração comunitária e uma exploração solitária. E, para nós nos fandoms, esse diálogo — esse ato de se apropriar por amor, e não por poder — é a própria essência de como mantemos as histórias vivas.
SOBRE ORIGINALIDADE
"Original” não é uma essência, é um rótulo que também está preso a códigos culturais. Para ser reconhecida como inédita, uma pessoa precisa performar essa novidade dentro de linguagens e moldes que os outros consigam decodificar. Ou seja: até a ruptura precisa falar a língua da ordem que pretende romper.
A margem de “extraordinariedade” existe, mas não é absoluta. A gente pode criar combinações inesperadas de elementos já disponíveis, deslocar significados de um contexto para outro, transgredir limites reconhecidos — mas nunca partir de um ponto zero fora de qualquer gramática social.
O que varia é o quanto alguém consegue:
Mapear e tensionar as formas pré-existentes.
Inventar usos que não estavam previstos, mas que ainda são legíveis o bastante para provocar reação.
Criar fissuras onde depois outros possam entrar.
Existe um equívoco, um pressuposto: como se “originalidade” fosse algo que pudesse existir em estado puro, como um diamante bruto dentro de alguém. Se você pergunta “até que ponto alguém pode ser original , inédito, extraordinário”, embute a ideia de que há um ponto zero possível — uma saída completa da trama cultural. É aí que a questão já nasce inclinada. “Original” é uma etiqueta que só faz sentido se alguém a reconhece como tal. E esse reconhecimento não é universal, é socialmente mediado. Alguns pontos pra clarear:
1. A ruptura precisa ser legível
Se você inventa uma linguagem que ninguém consegue decodificar, não é percebida como original, é vista como ruído, loucura ou erro. Para ser considerado “inédito”, o gesto tem de dialogar com o repertório existente, nem que seja para negá-lo.
2. O novo é sempre relativo
Algo pode soar extraordinário num contexto e banal em outro. Uma performance artística pode ser revolucionária em Paris em 1910 e só parecer estranha em uma vila remota no mesmo período. Ou o contrário: práticas ancestrais podem parecer de ponta quando “redescobertas” pela ciência moderna.
3. Performar novidade é estratégico
Muitos artistas, pensadores, até líderes espirituais, sabem disso intuitivamente: não basta ter uma ideia diferente, é preciso encená-la de modo que os outros consigam reconhecer o gesto como “desvio criativo”, e não como ruído sem sentido.
4. O extraordinário depende do olhar
Um ato só é extraordinário se alguém diz que é. O rótulo é produzido pelo olhar coletivo, que escolhe valorizar aquilo como ruptura.
Ou seja, ninguém é “extraordinário em si”; o que existe é a relação entre um gesto e a gramática cultural que o circunda. Exemplos de como isso funciona hoje em movimentos culturais (arte, política, internet), pra concretizar ainda mais:
1. Arte
O grafite já foi lido como vandalismo puro. Quando Banksy começa a fazer intervenções que dialogam com arte conceitual e crítica social, ele performa ruptura dentro de códigos que o público das galerias consegue decodificar. A mesma tinta no muro ganha a etiqueta de “extraordinário”.
2. Política
A performance de Greta Thunberg não é só “uma adolescente revoltada”. Ela encena novidade combinando três códigos legíveis: inocência juvenil, autoridade científica (sempre amparada em dados do IPCC) e o gesto de recusa (a greve escolar). É a mistura improvável que torna extraordinário — mas só porque fala a língua da mídia e do ativismo global.
3. Internet e cultura digital
Memes são pura reciclagem: nada neles é “do nada”. A originalidade está em como um formato saturado (o template de uma imagem já viral) é recombinado com um contexto inesperado, mas ainda reconhecível. O extraordinário é ser criativo o bastante para provocar riso e surpresa, mas não tanto que perca a graça por ser indecifrável.
4. Música
O rap no Brasil: Racionais MC’s. Eles não inventaram a batida, nem o formato. Mas ao falar da vida periférica usando linguagem dura e poética, no ritmo global do hip hop, criaram uma ruptura percebida como inédita no contexto nacional. Não por ser “essência nova”, mas por tensionar códigos já disponíveis.
Em todos os casos, o “extraordinário” é essa dança:
um pé no repertório que garante legibilidade,
outro pé fora, para abrir uma fresta de estranhamento.
Se você for só legível, é repetição; se for só estranho, é incomunicável.
O inédito nasce justamente desse ponto de fricção.
Então, o original / inédito/ extraordinário talvez não seja “vir do nada”, e sim alterar a forma como o já existente se articula, de modo tão improvável que pareça novo — mesmo que, olhando de perto, ainda esteja ancorado no repertório social que nos constitui. Como essa lógica se aplica a exemplos concretos — desde arte até relações pessoais:
1. Na arte
Picasso não inventou o cubismo do nada — ele bebeu de arte africana, do pós-impressionismo, da geometria que já circulava em movimentos europeus. O “extraordinário” foi juntar essas referências, deslocá-las do lugar “permitido” e criar uma gramática visual nova. Ainda assim, ele precisava operar dentro de códigos que críticos e público conseguissem minimamente reconhecer como arte.
2. Na ciência
Einstein não veio de Marte. Ele estava mergulhado na física do fim do século XIX, conhecia profundamente Newton e Maxwell. O inédito veio ao pegar conceitos estabelecidos (tempo, espaço, luz) e reorganizá-los de forma tão contraintuitiva que forçou todo mundo a repensar o quadro teórico. Mas a linguagem matemática e a rede acadêmica que permitiram sua teoria eram frutos da mesma ordem social.
3. Na vida pessoal
Pensa numa mulher que rompe com o modelo familiar esperado e cria um arranjo de vida incomum para a época. Isso pode parecer radical, mas ela ainda está usando valores, discursos e recursos que existem na sua cultura (direitos legais, referências de outras mulheres, narrativas midiáticas). A novidade é a forma como ela combina esses elementos e sustenta a posição diante das pressões normativas.
Em todos os casos, a originalidade não é um salto fora da história — é um desvio engenhoso dentro dela.
O extraordinário depende de fazer sentido o bastante para ser percebido, mas não sentido demais a ponto de ser absorvido sem fricção.
PENSAR POR SI SÓ
O “pensar por si só” é mais um mito moderno do que um fato possível. A gente nunca pensa a partir do vazio — sempre parte de linguagens, imagens, narrativas, categorias que herdou.
O que muda é como você negocia com esse estoque herdado:
Quais caixinhas abrir.
O que manter, o que descartar, o que remixar.
O quanto deslocar cada peça do uso original dela.
Então, não é “pensar sozinho”, é pensar com consciência de companhia — saber que há vozes, estruturas e histórias falando junto, e mesmo assim escolher como quer tecer o seu fio dentro desse coro. Essa ideia se aproxima do que Foucault e Bakhtin dizem sobre pensamento e discurso — eles deixam isso ainda mais claro.
1. Foucault – pensamento como prática situada
Foucault não fala em “pensar sozinho”, porque para ele o pensamento é sempre atravessado por discursos — redes de saber-poder que definem o que é dizível e pensável em cada época.
Quando você pensa, está manuseando ferramentas que já vêm de algum regime de verdade (por exemplo: a medicina moderna, a moral religiosa, a ciência iluminista).
O que é possível é:
perceber de onde vêm essas ferramentas;
e como usá-las ou desviá-las para fins não previstos.
A originalidade, nesse sentido, é uma subversão interna ao sistema, não um voo para fora dele.
2. Bakhtin – dialogismo
Bakhtin pega isso e coloca numa chave mais linguística e literária: todo enunciado é uma resposta a enunciados anteriores e um convite a enunciados futuros.
Ou seja: pensar é sempre responder — nunca inaugurar.
Você pensa com, contra, ao lado ou a partir de outros. Até o silêncio é um tipo de resposta, porque está posicionado no fluxo de diálogos sociais.
A “voz” própria, para ele, é uma orquestração de vozes alheias — mas com entonação, ritmo e cortes que você escolhe.
Concluindo, no fundo, Foucault e Bakhtin estão dizendo o mesmo ...
O “pensar por si só” é, na melhor das hipóteses, pensar sabendo com quem está pensando, e escolhendo deliberadamente quais vozes vai deixar falar mais alto e como vai fazê-las conversar.
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