P. Ilustrações: Fandom meets artificial intelligence
Há uma tensão profunda quando uma comunidade que historicamente opera em zonas cinzentas dos direitos autorais (o fandom) se vê na posição de defender a propriedade intelectual. Então, vamos com calma, pois a nossa dificuldade tem sido como nos posicionarmos, porque a situação não é preto no branco.
1. Camada Legal vs. Camada Ética:
· Sem Razão (na Camada Pura da Lei): Tecnicamente, uma fanart ou fanfic é, sim, uma violação de direitos autorais se o detentor dos direitos (ex: Disney) quiser processar. O fandom sempre soube que pratica uma "infração tolerada" baseada no fair use (uso justo), argumentando que é uma transformação criativa para fins não comerciais.
· Com Razão (na Camada Ética Comunitária): A revolta não é sobre a lei seca, mas sobre a quebra de um pacto ético. O fandom opera numa economia do dom (presente): eu crio por amor e compartilho de graça com a comunidade que entende e valoriza meu trabalho. A IA quebra esse pacto ao raspar (scraping) esse trabalho, dado como um "presente" para uma comunidade específica, e usá-lo para treinar um sistema comercial que lucra com ele. A queixa é: "Se nós, os criadores, não lucramos com isso, por que uma empresa de tecnologia gigante pode lucrar?"
2. A Diferença entre "Transformar" e "Ser Treinamento":
· O Fandom Transforma: Um artista de fanart estuda o estilo de um anime, internaliza as emoções dos personagens e cria uma nova obra com sua própria mão, seu próprio estilo e sua intenção afetiva. É uma releitura humana.
· A IA Digere: A IA não "se inspira". Ela analisa estatisticamente milhões de imagens para encontrar padrões. Ela não entende a emoção por trás da fanart da Ana; ela apenas registra que pixels tendem a aparecer junto com outros pixels. O trabalho da Ana /Davi vira apenas um dado num oceano de dados, um grão de areia usado para construir uma máquina de geração em massa.
A confusão surge porque a linguagem dos direitos autorais é a ferramenta legal mais óbvia para lutar contra isso, mesmo que a queixa principal seja sobre ética, consentimento e exploração de trabalho afetivo.
Agora, vamos aos artigos que estamos lendo e discutindo aqui em casa, e oferecem exatamente o framework teórico para entendermos essa complexidade toda. Análise do Artigo: "Fandom meets artificial intelligence: Rethinking participatory culture as human–community–machine interactions" Este artigo de Eva Cheuk-Yin Li e Ka-Wei Pang é conceitual. Ele propõe uma nova maneira de enxergar a cultura participativa (como o fandom) na era da IA. Eles criticam duas visões simplistas:
1. A visão da Ciência da Computação: Que vê o usuário de tecnologia como um indivíduo isolado interagindo com uma máquina.
2. A visão tradicional dos Fan Studies: Que muitas vezes trata a tecnologia digital como um simples "palco" onde os fãs atuam, sem analisar profundamente como a tecnologia molda as interações.
A proposta deles é brilhante: entender a cultura participativa como Interações Humano-Comunidade-Máquina (HCMI). Ou seja, a relação não é só "Ana/Davi e a IA". É "Ana/Davi <-> Comunidade de Fãs <-> IA", onde cada elemento influencia o outro.
Eles ilustram isso com três fenômenos:
1. Fan Labour Made (Un)Easy (O Trabalho Fã Facilitado e Desvalorizado)
A IA pode tornar algumas tarefas dos fãs mais fáceis (ex: traduzir uma fanfic, gerar uma ideia de enredo). Mas isso também pode desvalorizar o trabalho afetivo e skillfull que era valorizado pela comunidade. Se qualquer um pode gerar 100 fanarts com um prompt, o valor simbólico da fanart feita à mão, com horas de dedicação, muda completamente. A IA mexe com a economia de status e reconhecimento dentro da própria comunidade.
2. Parasocial Interactions (Un)Familiarised (Interações Parassociais Familiarizadas e Estranhadas)
Fãs já têm relações parassociais (unilaterais e afetivas) com celebridades e personagens. Agora, chatbots de IA (como o Character.AI) permitem que os fãs conversem em tempo real com uma simulação do seu ídolo. Isso ao mesmo tempo que familiariza (torna a relação mais íntima e interativa) também estranha (é uma simulação vazia, um eco algorítmico, não a pessoa real). É uma relação profundamente ambígua.
3. Realities (Un)Settled (Realidades Abaladas)
A IA gera deepfakes e conteúdos sintéticos que podem confundir o que é real e o que é ficção no universo do fandom. Um exemplo do artigo: um escândalo na Tailândia envolvendo deepfakes de celebridades. Isso abalou a realidade dos fãs, criando desconfiança e ansiedade. A IA tem o poder de perturbar os consensos sobre a "verdade" dentro de uma comunidade.
Como esse artigo ajuda Ana/Davi a se posicionar?
Este artigo tira Ana/Davi do impasse simplista ("estou certa ou errada?") e coloca eles dentro de um ecossistema complexo e dinâmico.
· A Luta não é Sobre Direitos Autorais Puros e Simples: É sobre como a IA está reconfigurando as relações entre eles (criadores), a comunidade que amam e consome sua arte, e as máquinas que podem imitá-la.
· O Valor da Comunidade é Central: A posição de Ana/Davi ganha força quando ela entende que seu trabalho tem valor nessa rede de interações humanas. A IA pode imitar o produto (a imagem), mas não pode replicar a inserção dela na comunidade, o feedback, o reconhecimento pelos pares, a história por trás de cada desenho.
· A Resistência é Coletiva e Ética: A resposta à IA não precisa ser apenas processos judiciais (que são confusos para o fandom). Pode ser uma resistência ética e comunitária: a comunidade pode criar normas contra o uso de IA, valorizar explicitamente a arte "feita à mão", e reforçar os valores de autenticidade e afeto que a IA não pode tocar.
Em resumo, nossa dificuldade em nos posicionarmos é o ponto de partida mais honesto e produtivo. A solução não é encontrar um lado "certo", mas entender que estamos num território novo, onde velhas categorias (como direitos autorais) são insuficientes. O artigo nos dá a linguagem para entender que o desafio é renegociar, como comunidade, o valor da criatividade humana em relação às máquinas.
A arte (fanarts) da Ana e do Davi vale não pelo seu status legal, mas pelo lugar que ocupa na teia de interações humano-comunidade-máquina. E é nesse lugar que a IA, por enquanto, não consegue entrar.
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