P. Cine&Tela: Os musicais do TikTok

Você sabia que a ascensão dos "musicais do TikTok" não é apenas uma curiosidade da internet? Eu aprendi que é, talvez, a manifestação mais pura da cultura participativa no século XXI. O que começou com vídeos curtos evoluiu para um modelo de criação descentralizada que desafia as estruturas tradicionais da Broadway. Aqui está uma análise desse fenômeno e como ele transforma o espectador em coautor.

O Caso "Ratatouille": A Broadway Crowdsourced

Em 2020, o que começou como uma piada interna — um usuário cantando uma ode a Remy, o rato — transformou-se em Ratatouille: The TikTok Musical. Milhares de criadores, sem nunca terem se conhecido, contribuíram com:

Composições: Músicas para personagens secundários.

Coreografias: Danças pensadas para o palco.

Design: Figurinos feitos de materiais caseiros e artes de cenários.

Playbills: Design gráfico profissional para o programa do show.

O resultado foi um concerto beneficente que arrecadou mais de US$ 2 milhões para o The Actors Fund. Foi o "exemplo máximo" porque não houve um diretor central inicial; a visão artística emergiu de forma orgânica e coletiva.

Pilares da Cultura Participativa no TikTok

O conceito de cultura participativa, cunhado por Henry Jenkins, sugere que o público não consome passivamente, mas atua como colaborador. No TikTok, isso é potencializado por ferramentas específicas:

1. O Recurso "Dueto" como Ensaio Coletivo

A função de dueto permite que um músico em Londres adicione uma linha de baixo a uma melodia criada por alguém em Nova York. Isso cria uma cadeia de suprimentos criativa onde cada elo adiciona valor ao trabalho anterior.

2. A Democratização do Acesso

Historicamente, o teatro musical é uma arte de elite (cara de produzir e cara de assistir). No TikTok, o custo de entrada é zero. O talento é o único filtro, permitindo que compositores amadores e profissionais brilhem lado a lado.

3. Validação em Tempo Real

Ao contrário de um musical tradicional, que leva anos para ser escrito em segredo, os musicais do TikTok são testados "em público". O feedback (curtidas, comentários e visualizações) atua como um laboratório de dramaturgia instantâneo.

Além de Ratatouille: O Legado de "Bridgerton"

O fenômeno não parou no rato cozinheiro. O The Unofficial Bridgerton Musical, criado por Abigail Barlow e Emily Bear, levou a cultura participativa a um novo patamar de prestígio, vencendo um Grammy em 2022.

Isso provou que o conteúdo gerado pelo usuário (UGC) não é apenas "conteúdo de internet", mas propriedade intelectual de alta qualidade que pode competir com os gigantes da indústria fonográfica e teatral.

Conclusão

Os musicais do TikTok subvertem a hierarquia "de cima para baixo" da indústria cultural. Eles transformam o fã de um objeto de marketing em um prosumidor (produtor + consumidor). É a prova de que, quando as ferramentas de produção são colocadas nas mãos da multidão, o palco se torna infinito.

Gostaria que eu analisasse como as questões de direitos autorais funcionam nesses casos de criação coletiva ou prefere uma lista de outros musicais que nasceram na rede?

Comentários