P. Ilustrações: Assinatura Artística x Marca Profissional

Hoje vou explicar com exemplos concretos, porque essa diferença é central para o meu projeto e para o posicionamento ético que estou construindo.


ASSINATURA ARTÍSTICA vs. MARCA PROFISSIONAL

Assinatura Artística = É a minha voz autoral. É o traço que faz alguém olhar para um desenho e dizer "isso é da Ana". Pode ser expressionista, minimalista, caótica, lírica. Não precisa ser consistente para vender; precisa ser expressiva.

Marca Profissional = É a tradução comercializável dessa assinatura. É o logotipo, a paleta de cores fixa, a tipografia recorrente, o tom de voz nos posts. Precisa ser consistente, reconhecível e funcional em diferentes plataformas.


COMO ELAS SE COMPORTAM DIFERENTE DIANTE DA ÉTICA DA IA?

1. Assinatura Artística: Liberdade com Transparência

A assinatura artística pode experimentar, se apropriar, citar, homenagear. Isso é historicamente legítimo.

Exemplo: Se eu, como @ninhaencantada, faço um desenho inspirado no traço do Tite Kubo (Bleach), isso não é plágio. É diálogo artístico. Eu não estou vendendo como se fosse original do Kubo, nem enganando ninguém.

Comportamento Ético:

· Pode se apropriar, desde que referencie (num post, numa legenda, num vídeo).

· Pode estudar mestres copiando seus traços em caderno de estudos (isso é prática consagrada).

· A assinatura amadurece justamente devorando referências.

A IA não pode fazer isso? 

Ela até pode, mas o problema é: a IA não dá crédito, não contextualiza, não tem intencionalidade. Ela só extrai valor. Sua assinatura artística, quando faz apropriação, devolve valor na forma de homenagem, crítica ou ressignificação.

2. Marca Profissional: Compromisso com a Autoria

A marca profissional é um selo de confiança. Quando alguém contrata a @ninhaencantada para fazer um logotipo, espera que seja eu esteja criando, não alimentando um prompt no Midjourney e retocando no Photoshop (a menos que isso seja explícito e contratado como tal).

Comportamento Ético:

· A marca profissional deve ter limites mais rígidos sobre o que é "autoral".

· Se eu vendo uma identidade visual, o cliente espera exclusividade e originalidade de fato, não uma variação de algo gerado por IA treinada em milhares de artistas sem consentimento.

· A marca profissional não pode se apropriar livremente como a assinatura artística, porque ela opera no campo do serviço e do comércio.


EXEMPLO PRÁTICO

Cenário 1 (Assinatura Artística):

Eu posto no TikTok/Instagram um desenho feito à mão, inspirado em sandálias havaianas e em Romero Britto, com meu traço pessoal. Na legenda: "Brinquei com cores inspiradas na cultura de praia e no estilo pop de Britto".

➡️ Apropriação legítima. Diálogo artístico. OK.

Cenário 2 (Marca Profissional):

Um cliente contrata a @ninhaencantada para criar o branding de uma marca de moda praia. Eu uso IA para gerar 50 opções de logotipo, escolho uma, ajusto levemente e entrego como "criação original".

➡️ Problema ético. O cliente pagou por sua curadoria autoral, mas recebeu curadoria de máquina treinada em trabalho não consentido. Isso fragiliza a confiança na marca.


POR QUE ISSO IMPORTA NO MEU PROJETO?

Porque a mesma artista pode operar em duas chaves diferentes:

Meu projeto foi investigar exatamente isso: como estabelecer critérios para que uma artista navegue entre esses dois papéis sem contradição ética?


E SE VOCÊ QUISER USAR IA NA MARCA PROFISSIONAL?

Pode. Não é proibido. Mas exige:

1. Transparência: "Criei este logotipo com auxílio de IA, partindo dos seguintes referenciais que alimentei manualmente..."

2. Consentimento: Usar ferramentas treinadas apenas em domínio público ou com datasets éticos (ex: Adobe Firefly, que treina com conteúdo licenciado).

3. Valor agregado: O que VOCÊ fez além do prompt? A curadoria, a vetorização, a aplicação, a adaptação cultural?


Resumo 

A diferença de comportamento entre assinatura artística e marca profissional é um microcosmo do debate maior do meu projeto. Assim como a IA generativa precisa ser regulada de forma diferente dependendo do uso (arte experimental vs. indústria comercial), a artista também pode operar com liberdade em um contexto e com responsabilidade aumentada em outro.

Isso não é hipocrisia. É maturidade ética.

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