P. Videogames: narratologia aplicada à transmidialidade

A narratologia pode ser uma ferramenta valiosa para analisar e entender como uma história se transforma ao longo de diferentes mídias no contexto da narrativa transmídia, especialmente quando uma obra original, como um mangá, é expandida e adaptada para um videogame e, posteriormente, para uma série de streaming. A análise narratológica pode ajudar a identificar como elementos essenciais da história são preservados, alterados ou expandidos em cada meio, considerando aspectos como estrutura, perspectiva e experiência do público.


1. Aplicação da Narratologia na Transmidialidade

A adaptação de uma história entre diferentes mídias envolve mudanças na forma de narrar, pois cada plataforma tem suas próprias características e potencialidades narrativas. A narratologia pode ajudar a entender essas transformações a partir de três níveis principais:

Nível estrutural – Como os eventos são organizados, a relação entre a narrativa original e as novas versões (adaptação fiel vs. reinterpretação), e a maneira como a ordem, duração e frequência dos eventos mudam de uma mídia para outra.

Nível diegético – A continuidade do mundo ficcional ao longo das adaptações, a expansão da "lore" (trama de fundo), introdução de novos personagens e elementos.

Nível narrativo – Como a experiência do público muda, por exemplo, ao passar da leitura passiva no mangá para a interatividade do videogame e depois para a experiência visual e sonora da série de streaming.


2. Aspectos narratológicos em cada mídia

Cada mídia possui suas próprias formas de contar histórias, e a narratologia analisa como esses formatos afetam a experiência narrativa:


Mangá (mídia original)

Focalização visual: A narrativa é conduzida principalmente através de ilustrações e quadros que definem ritmo e emoção.

Temporalidade: O leitor controla o tempo da narrativa (lendo rapidamente ou lentamente).

Focalização interna: Muitas vezes o mangá utiliza narrações em primeira pessoa, pensamentos e diálogos diretos com o leitor.


Videogame (expansão interativa)

Mudança de focalização: O jogador assume um papel ativo, com múltiplas perspectivas (câmera em primeira ou terceira pessoa, por exemplo).

Não-linearidade: Diferentes escolhas podem alterar o enredo original, criando narrativas emergentes (não previstas no mangá).

Expansão da história: Conteúdos adicionais, como missões paralelas ou personagens exclusivos, podem enriquecer ou modificar o universo narrativo original.

Imersão multimodal: Uso de música, voz e mecânicas de jogo para reforçar a experiência emocional da narrativa.

Série de streaming (adaptação audiovisual)

Pacing (ritmo): Diferente do mangá, o ritmo da série é ditado pela edição e direção.

Focalização variável: Alternância entre perspectivas de personagens por meio de montagem, diálogos e efeitos visuais.

Reestruturação da trama: Eventos podem ser reorganizados para criar cliffhangers ou episódios temáticos, visando maior engajamento do público.

Elementos sensoriais: Trilha sonora, efeitos visuais e atuações acrescentam camadas emocionais que não estão presentes na leitura estática do mangá.


3. Expansão narrativa no contexto transmídia

Ao migrar entre mídias, a história pode passar por diferentes processos de expansão e complementação, algo estudado dentro da narratologia transmídia. Segundo Henry Jenkins, uma narrativa transmídia deve:

Expandir o universo narrativo, adicionando novas perspectivas (um personagem secundário no mangá pode ganhar protagonismo na série ou no jogo).

Criar complementaridade entre mídias, onde cada adaptação adiciona algo novo em vez de apenas recontar a história original.

Fomentar a interatividade, permitindo que os fãs explorem conteúdos inéditos e se envolvam na construção do universo narrativo (como fóruns de discussão, eventos e conteúdos extras).

A narratologia pode analisar essas expansões observando:

A coerência narrativa entre as mídias;

A introdução de novas camadas de significado;

As diferenças no engajamento emocional dos públicos em cada formato.


4. Diferenças de recepção e interpretação

Outro ponto relevante é que cada adaptação transmídia envolve diferentes modos de recepção. Os leitores do mangá podem ter uma experiência mais introspectiva e pausada, enquanto os jogadores vivenciam a história de forma ativa e participativa, e os espectadores da série recebem a narrativa de maneira mais emocional e sensorial.

A narratologia, nesse caso, pode ajudar a compreender como os elementos narrativos-chave (como personagens, temas e reviravoltas) são reinterpretados conforme a mídia muda e como o público reage a essas variações.


Conclusão

A narratologia, aplicada à transmidialidade de um mangá adaptado para videogame e depois para uma série, permite entender como os elementos narrativos essenciais são traduzidos e expandidos em diferentes plataformas. Ela ajuda a analisar:

1. A fidelidade ou transformação da estrutura narrativa.

2. A forma como a experiência do público muda em cada mídia.

3. A construção de um universo coeso e interligado.

4. A criação de novos significados e interações no processo transmídia.

Com essa abordagem, é possível avaliar como a história original do mangá se mantém relevante e cativante para novos públicos ao longo das diferentes mídias, sem perder sua essência narrativa.

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