P. Videogames: transmidialidade da Marvel com a narratologia

Como aprendi a analisar a transmidialidade da Marvel com a narratologia

Desde pequeno, eu gosto das histórias da Marvel, seja nos quadrinhos, nos jogos de LEGO ou nos filmes do MCU. Mas foi só recentemente, quando comecei a estudar narratologia com minha mãe, que percebi como essas histórias mudam conforme são adaptadas para diferentes mídias. Entendi que a narratologia pode ser uma ferramenta muito útil para analisar essas mudanças e entender melhor como cada versão de uma mesma história é contada de maneiras diferentes.

Minha mãe me explicou que, para analisar a adaptação de uma HQ da Marvel para um jogo de videogame e depois para o cinema, podemos olhar para três níveis principais da narrativa:


1. Como a estrutura da história muda (Genette)

Nos quadrinhos, os eventos acontecem de forma sequencial através dos quadros. Eu controlo o ritmo da leitura, posso voltar páginas para entender melhor, e a história segue uma ordem bem definida. Já no jogo, as coisas mudam muito! No LEGO Marvel Super Heroes, por exemplo, eu posso escolher qual missão fazer primeiro, e o enredo se torna não-linear, porque as cutscenes só aparecem depois que certas ações são completadas. Isso faz com que o jogo expanda o mundo da HQ, adicionando missões paralelas que não estavam na história original.

Quando a história vai para o cinema, como nos filmes dos Vingadores, o ritmo é controlado pela edição e direção, então eu já não tenho controle sobre como os eventos acontecem. Eles reorganizam as cenas para criar suspense e fazer o público querer ver o próximo filme (tipo aqueles cliffhangers no final de "Vingadores: Guerra Infinita"). Minha mãe me explicou que isso é uma reestruturação da trama, que acontece para manter o público engajado.


2. O universo da história se expande nas diferentes mídias

Outro ponto que aprendi é que as adaptações transmídia não contam exatamente a mesma história, mas expandem o universo. No quadrinho original de Homem de Ferro, por exemplo, a origem do Tony Stark é mais introspectiva, focada nele criando a armadura para fugir do cativeiro. No jogo da LEGO, eles ampliam esse universo com novos personagens e missões secundárias que não estavam na HQ, tipo lutar contra vilões menores do universo Marvel.

No cinema, a Marvel cria ainda mais expansões, como quando introduziu personagens que nem estavam na história original, como o Gavião Arqueiro, e mudou algumas coisas para se encaixar melhor no Universo Cinematográfico da Marvel (MCU). Isso é o que minha mãe chamou de expansão da "lore", quando novas adaptações acrescentam detalhes e conexões que não estavam presentes antes.


3. A experiência muda conforme a mídia muda

Uma das coisas mais legais que aprendi é como a experiência de acompanhar a mesma história muda dependendo da mídia.

Nos quadrinhos, eu leio no meu próprio ritmo, posso parar para analisar cada detalhe dos desenhos e dos diálogos internos dos personagens. O foco interno nos permite entender melhor os pensamentos e motivações dos heróis.

No jogo, a experiência é totalmente diferente. Eu controlo os personagens, posso explorar livremente a cidade de Nova York como o Homem-Aranha, e isso me dá uma sensação de imersão muito maior. Minha mãe me explicou que essa mudança de narrativa acontece porque, no videogame, a história não é fixa – eu crio a minha própria experiência de acordo com as decisões que tomo.

Nos filmes, por outro lado, sou só espectador, mas a história é contada de forma muito mais sensorial. A trilha sonora, os efeitos especiais e as atuações adicionam emoções que eu não sentiria apenas lendo o quadrinho ou jogando. Por exemplo, a primeira vez que vi Vingadores: Ultimato no cinema, senti uma emoção muito maior do que quando li o quadrinho porque a música e as expressões dos atores tornavam tudo mais real. Isso é o que minha mãe chamou de imersão multimodal, quando várias formas de arte se juntam para criar uma experiência mais forte.


4. Como cada mídia complementa a outra

Algo interessante que aprendi estudando Henry Jenkins, um especialista em transmídia que minha mãe me apresentou, é que as histórias da Marvel não são só copiadas de uma mídia para outra. Cada versão traz algo novo. No jogo LEGO, por exemplo, eles adicionam humor e missões novas que não estavam nos filmes. A série da Ms. Marvel no Disney+ trouxe novas perspectivas sobre a personagem, explorando sua cultura de uma forma que não foi tão detalhada nos quadrinhos.

A ideia de Jenkins é que, para uma boa transmídia, cada adaptação deve adicionar algo novo, e não apenas repetir o que já foi contado. Isso me fez pensar que, mesmo vendo a mesma história em diferentes formatos, eu sempre aprendo algo novo sobre os personagens e o universo Marvel.


5. Como o público reage de formas diferentes em cada mídia

Outra coisa que percebi é como os fãs reagem de maneiras diferentes dependendo da mídia. Minha mãe me explicou que, na narratologia, isso se chama recepção da narrativa. Quem lê as HQs tem mais tempo para refletir sobre a história e criar teorias detalhadas, enquanto quem só assiste aos filmes tem uma experiência mais emocional e direta. Já quem joga os jogos pode ter uma visão mais pessoal da história, porque interage diretamente com ela.

Eu percebi isso quando falei com meus amigos: uns gostam mais dos quadrinhos porque acham que explicam melhor as histórias, enquanto outros preferem os filmes porque acham mais emocionante. E eu, sinceramente, gosto de tudo, porque cada versão tem algo legal a oferecer.


Conclusão: O que aprendi analisando a Marvel através da narratologia


Depois de estudar tudo isso com minha mãe, percebi que analisar uma história da Marvel não é só pensar no enredo, mas entender como ela muda em diferentes mídias e como isso afeta nossa experiência. A narratologia me ajudou a perceber que:


1. A estrutura da história pode mudar dependendo da mídia, como a ordem dos eventos ou a maneira como os personagens são apresentados.


2. O universo narrativo da Marvel cresce e se expande com cada nova adaptação, trazendo elementos novos para enriquecer a trama.


3. A experiência de viver a história é diferente em cada mídia – HQs são mais introspectivas, jogos são mais interativos e filmes são mais emocionantes.


4. As mídias não apenas repetem a história, mas complementam-se, cada uma oferecendo algo novo para o público.


5. O público reage de maneiras diferentes dependendo do formato da narrativa.


Agora, sempre que jogo um game da Marvel, assisto a um filme ou leio uma HQ, fico pensando em como cada versão da história é construída e o que ela adiciona ao universo da Marvel. E o mais legal é que isso me fez aproveitar ainda mais cada uma dessas mídias.

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