P. Cine&Tela: Juventude

Em A Juventude (Youth, 2015), Paolo Sorrentino utiliza a melancolia e o rigor estético para contrapor a decrepitude física à vivacidade da memória. À primeira vista, o filme se apresenta como uma meditação existencial e poética sobre o tempo, a perda do vigor criativo e a busca pelo sentido da vida no crepúsculo da existência.

A falha analítica e a omissão central do filme residem no fato de que essa "meditação universal" é, na verdade, profundamente androcêntrica e patriarcal. Sorrentino confunde a perspectiva do homem branco, idoso, heterossexual e burguês com a própria condição humana face ao tempo.

​Sob a ótica do patriarcado, a "juventude" e a "velhice" são mercantilizadas e distribuídas de forma assimétrica com base no gênero:

​O Homem e o Tempo (O Declínio do Criador): Para Fred (Michael Caine) e Mick (Harvey Keitel), envelhecer é uma tragédia da perda de potência — criativa, intelectual e sexual —, mas eles ainda retêm o status de "gênios" consagrados. Suas crises são existenciais, suas carreiras são legados. A velhice masculina é tratada com dignidade filosófica.

​A Mulher e o Tempo (A Obsolescência do Objeto): A juventude feminina é retratada através do olhar voyeurístico dos dois idosos (exemplificado na icônica cena da Miss Universo nua na piscina). A juventude da mulher é um espetáculo estético passivo, um combustível para a nostalgia masculina. Em contrapartida, a velhice feminina é punida ou invisibilizada: a esposa de Fred está confinada ao esquecimento em um sanatório, e a atriz veterana Brenda Morel (Jane Fonda) é apresentada de forma quase grotesca, descartada pela indústria porque seu valor de mercado (atrelado à juventude e beleza) expirou.

​A Relação Filial: Lena (Rachel Weisz), a filha, é estruturada na narrativa em função do pai. Sua dor inicial decorre do abandono pelo marido, reafirmando sua identidade através do abandono masculino, enquanto serve de cuidadora emocional para o patriarca.

​Síntese:

O filme apresenta uma visão sobre o envelhecer e a juventude que é indissociável da perspectiva patriarcal. Ele opera dentro da lógica onde o homem acumula história e prestígio ao envelhecer (o maestro e o cineasta), enquanto a mulher perde valor à medida que se afasta do ideal estético da juventude.

​Sorrentino oferece uma beleza plástica inegável, mas ela serve para romantizar uma assimetria: o homem idoso chora a perda do futuro e da memória; a mulher idosa chora a perda da utilidade aos olhos do homem.

​Considerando isso, proponho a seguinte provocação: a melancolia que emana do filme é realmente sobre a inevitabilidade da morte, ou é o luto de um privilégio masculino (o controle sobre o mundo e sobre o corpo do outro) que se esvai com o tempo?

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