P. EaD: Clonlara School Off Campus
O ensino a distância, embora tenha ganhado destaque recentemente com o avanço da tecnologia, tem raízes históricas que remontam séculos atrás. Antes do surgimento das escolas como as conhecemos hoje, a educação era predominantemente conduzida no ambiente familiar, onde as crianças aprendiam por meio de brincadeiras e interações autodirigidas. O advento das escolas primárias no século XIX marcou uma mudança significativa, mas foi apenas com o surgimento das primeiras escolas de uma sala só que o conceito de educação formal começou a se estabelecer de maneira mais ampla.
A modalidade de ensino a distância também tem uma história longa, começando inicialmente com o ensino por correspondência no século XIX e evoluindo ao longo do tempo com o advento do rádio, da televisão e, mais recentemente, da internet. Hoje, o ensino a distância se tornou uma opção cada vez mais popular devido à sua flexibilidade e conveniência, permitindo que os alunos acessem a instrução a qualquer momento e em qualquer lugar, superando barreiras geográficas e ampliando as oportunidades educacionais tanto nacional quanto internacionalmente.
A Clonlara, desde sua fundação, tem desempenhado um papel significativo no campo do ensino a distância, oferecendo um programa off-campus que permite aos alunos seguir um ritmo individual de aprendizado. Esse formato proporciona liberdade e autonomia às famílias, que têm a flexibilidade de conduzir o processo educacional de acordo com suas preferências, enquanto a escola oferece suporte institucional e orientação, apontando para diversas possibilidades pedagógicas.
Embora a transição para um sistema de ensino tão flexível possa parecer desafiadora inicialmente, muitas famílias têm descoberto que vale a pena, encontrando um equilíbrio entre estrutura e liberdade dentro do "cadre" estabelecido. É importante ressaltar que, embora a Clonlara deixe a critério das famílias a definição do projeto pedagógico, ela as orienta a seguir as diretrizes do Ministério da Educação e da Base Nacional Comum Curricular (BNCC) do país em que residem, garantindo que a educação oferecida esteja em conformidade com a legislação educacional vigente.
Ao compreender que a educação abrange não apenas os processos formais nas instituições de ensino, mas também se desenvolve na vida familiar, no trabalho, nas interações sociais e culturais, as famílias podem proporcionar uma educação rica e diversificada, complementando os esforços do Estado na promoção do capital cultural e intelectual das novas gerações. Assim, dentro do quadro legal estabelecido pela lei de educação nacional, as famílias têm a liberdade de organizar o ensino de acordo com suas necessidades e valores, contribuindo para a formação integral dos seus filhos.
A NOSSA EXPERIÊNCIA
A nossa experiência pessoal nos mostrou que a realidade é muito mais complexa.
1. Sobre a "Exposição à Diversidade"
· A Bolha Escolar: A gente viu que as escolas, que nossos filhos e nós frequentamos, longe de serem um caldeirão da diversidade, são bolhas homogêneas. Todos os alunos são da mesma classe social, etnia e background religioso, a "diversidade" que se experiencia é muito superficial (gostos musicais, estilos pessoais). A escola reproduz a segregação socioespacial da sociedade.
· A Diversidade Real no Unschooling: A gente tem a liberdade de buscar uma diversidade mais autêntica e intencional.
· A Ana, ao frequentar um ateliê de costura, oficinas de vela, ovo de chocolate, entre outras, pode encontrar pessoas de todas as idades (algo raro na escola), desde adolescentes até aposentados, cada um com uma trajetória de vida única.
· O Davi, em fóruns online ou eventos de cultura pop, interage com pessoas de diferentes países, culturas e visões de mundo, unidas por um interesse comum.
· Ir ao mercado, à biblioteca, viajar em época de baixa temporada, participar de projetos comunitários – tudo isso proporciona um espectro de interações sociais mais amplo e real do que a bolha de uma sala de aula homogênea.
Conclusão: O argumento da diversidade escolar é, muitas vezes, um ideal que não se concretiza. A socialização no ensino domiciliar, quando bem feita, pode ser menos artificial e mais representativa da sociedade como um todo.
2. Sobre "Lidar com Hierarquias e Estruturas"
Uma questão política e filosófica crucial.
· A Escola como Aparelho Ideológico: A crítica feita por pensadores, como Michel Foucault e os teóricos da reprodução social, argumenta que a escola não é neutra; ela é uma instituição que prepara para o mercado de trabalho capitalista e industrial.
· Adestramento vs. Autonomia: A obediência irrefletida ao toque do sino, a autoridade incontestável do professor, e as longas horas sentado são, de fato, um treinamento para a disciplina fabril e de escritório. É um modelo que prioriza a conformidade em detrimento da autonomia.
· A Alternativa do Autodidatismo: No modelo dos nossos filhos, eles estão aprendendo a lidar com hierarquias de uma forma diferente. Eles aprendem a:
· Respeitar especialistas (um tutor de arte, um palestrante) por seu conhecimento, e não apenas por seu cargo.
· Gerir o próprio tempo e cumprir prazos que eles mesmos entendem e internalizam (para um projeto de desenho ou uma análise), desenvolvendo autodisciplina em vez de obediência passiva.
· Questionar e dialogar, pois a relação educacional é mais horizontal e dialógica.
Conclusão: A escola presencial tradicional molda para um tipo específico de sociedade e mercado de trabalho. O unschooling é uma forma de resistência a esse modelo, preparando os jovens não para serem "funcionários obedientes", mas para serem cidadãos críticos e empreendedores de suas próprias vidas.
3. Sobre o "Contrato Social em Miniatura"
· O Ambiente Artificial da Escola: Uma sociedade onde todos têm exatamente a mesma idade é uma anomalia. No mundo real, nós convivemos com pessoas de 8 a 80 anos. A escola cria um ambiente socialmente empobrecido e artificial, onde as dinâmicas de poder e interação são distorcidas pela homogeneidade etária.
· O Microcosmo Mais Realista: A vida dos nossos filhos, com idas ao mercado (interagindo com adultos), participação em grupos de interesse multietários, e o convívio familiar intenso, é um microcosmo social muito mais fiel à realidade do que uma sala de aula. Eles aprendem a se relacionar com crianças menores, com adultos jovens e com idosos – uma habilidade social fundamental que a escola ignora.
Ou seja ...
No Unscooling a Socialização é Ativa, não Passiva.
Meus filhos não estão trancados em casa. A socialização deles acontece em:
· Grupos de interesse: Aulas de arte para a Ana, clubes de HQ/games para o Davi. Nesses ambientes, a interação é baseada em paixões comuns, o que é um ótimo motivador para criar vínculos.
· Atividades esportivas, culturais e comunitárias.
· Convívio no bairro, comércio local, parques: Onde aprendem a interagir com pessoas de todas as idades, não apenas com seus pares etários, como na escola.
· Projetos voluntários ou em grupo.
A "Sociedade" é mais do que a Sala de Aula.
A vida em sociedade não se resume a levantar a mão para falar e fazer fila para o lanche.Envolve:
· Autogestão e responsabilidade: Cozinhar, limpar, pagar contas e se organizar são competências sociais fundamentais para um adulto funcional e independente. Nossos filhos aprendem isso. Mas muitos jovens escolarizados tradicionais saem de casa sem essas habilidades básicas.
· Crítica e consumo consciente: O Davi e a Ana, ao analisarem HQs, animes e games, estão aprendendo a decodificar a cultura que consome, a entender narrativas, mensagens e valores. Isso é uma habilidade social e crítica aguçada.
· Cidadania prática: Aprender a lidar com o mundo real – desde ir ao mercado até entender como funcionam os serviços públicos – é uma forma de viver em sociedade.
A escola presencial tradicional,por vezes, reproduz dinâmicas sociais negativas: bullying, pressão de grupo, competição excessiva. O ensino domiciliar, quando bem conduzido, pode proteger a criança dessas experiências traumáticas enquanto ensina a lidar com conflitos de maneira mais saudável e supervisionada.
A Escola como Ambiente Hostil para a Neurodiversidade
1. A "Obediência Irrefletida" é Incompatível com Mentes Neurodivergentes.
Para uma criança autista, como nossos filhos, a obediência irrefletida pode ser impossível e traumática.
· O toque do sino: Uma interrupção abrupta no hiperfoco é mais do que um incômodo; pode ser uma agressão sensorial e uma quebra violenta de um estado de flow e compreensão.
· A autoridade incontestável: Muitas crianças autistas têm um forte senso de justiça e lógica. Se uma ordem é injusta ou ilógica (do ponto de vista delas), a dificuldade em acatá-la não é "má vontade", é uma questão de integridade neurológica. Elas são punidas por não conseguirem desligar seu próprio raciocínio.
· As longas horas sentado: Isso ignora completamente as necessidades de regulação sensorial e motora. O que a escola vê como "inquietação", é na verdade uma necessidade física de se movimentar para poder aprender.
2. O Discurso Inclusivo da Boca pra Fora é a Regra, não a Exceção.
A nossa experiência com a professora e colegas que praticaram bullying é a prova viva disso. A inclusão verdadeira exige:
· Formação específica (que a maioria dos professores não tem).
· Ressignificação da "disciplina" (entendendo que comportamentos são comunicação).
· Flexibilização curricular e ambiental (que o sistema padronizado resiste em fornecer).
Quando a própria figura de autoridade, que deveria ser o porto seguro, se torna a agressora, a escola falha de forma catastrófica. Isso não é "preparar para a vida", é traumatizar e invalidar a identidade da criança.
O Unschooling como Acomodação Razoável Radical
Diante desse cenário, o ensino domiciliar que proporcionamos não é apenas uma alternativa pedagógica. É uma estratégia de sobrevivência e florescimento.
· Respeito ao Ritmo e Perfil Sensorial: meus filhos podem regular seus corpos e mentes sem serem punidos por isso. Podem balançar, caminhar durante a aula, fazer pausas quando necessário, usar fones de ouvido para bloquear ruídos – coisas que na escola seriam vistas como "problemas de comportamento".
· Aprendizado Baseado no Interesse (Hiperfoco): a paixão da Ana pelo desenho e a do Davi pela análise crítica não são "hobbies" à parte do aprendizado; são a própria base do aprendizado. Para uma mente autista, o hiperfoco é uma ferramenta poderosíssima de compreensão do mundo. A escola tenta extinguir isso; o unschooling o celebra.
· Socialização Significativa e Sem Bullying: a gente está oferecendo a eles a chance de socializar em ambientes onde suas paixões são o foco, onde podem encontrar pessoas com interesses afins, longe do julgamento cruel dos pares e, o que é mais grave, dos professores.
Conclusão:
Quando digo: "eu não vejo a escola inclusiva", estou resumindo a experiência de milhões de famílias de crianças autistas. A escola é, em sua estrutura fundamental, neurotípica. Ela foi feita para mentes neurotípicas.
A decisão de retirar nossos filhos desse ambiente não foi um capricho. Foi um ato de proteção. A gente não está privando a Ana e o Davi de "aprender a viver em sociedade"; a gente está resgatando os dois de uma "sociedade em miniatura" que os rejeitava e machucava, para inseri-los em uma sociedade mais ampla e diversa onde eles têm a chance de se desenvolver com dignidade.
A obediência irrefletida que a escola exige não prepara para a vida – ela prepara para a submissão. E o que meus filhos autistas precisam, e o que estamos lhes dando, não é aprender a se submeter, mas sim a como navegar o mundo sendo exatamente quem eles são. Isso sim é a verdadeira lição para a vida.
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