P. Videogames: o Brasil no Minecraft - parte 9

A violência simbólica das elites

Nesta etapa dos nossos estudos, nós falamos sobre como as coisas funcionam aqui no Brasil. Desde o começo, o país foi dominado por grupos de pessoas ricas e poderosas que se uniram para manter o controle sobre tudo. Mesmo depois da independência, essa elite continuou mandando. Houve um momento em que parecia que as coisas poderiam mudar, quando o presidente Jango falou sobre fazer reformas para ajudar os trabalhadores. Mas logo depois disso, ele foi derrubado por um golpe militar, e a ditadura começou. Isso trouxe muita violência e também uma ideia nova chamada neoliberalismo.



A Violência Simbólica das Elites: Como as Narrativas de Poder Moldam o Brasil

Ao estudarmos a formação do Brasil, percebemos que o país sempre foi governado por uma elite que, desde os tempos coloniais, se organizou para manter seu domínio sobre a terra, a economia e as instituições. Mesmo após a Independência, esse grupo seguiu no controle, moldando o Estado conforme seus interesses. Um momento crucial — e trágico — dessa história foi o golpe militar de 1964, que interrompeu um projeto de reformas sob o governo de João Goulart, o Jango, que visava ampliar direitos trabalhistas e promover justiça social. Em seu lugar, instaurou-se uma ditadura que não só calou vozes dissidentes, mas também pavimentou o caminho para a introdução do neoliberalismo no Brasil.

O neoliberalismo, porém, não é apenas um modelo econômico. Ele age como uma lente através da qual enxergamos a nós mesmos e aos outros. Sob seu discurso de “liberdade individual” e “competitividade”, ele naturaliza a ideia de que cada um deve resolver seus problemas sozinho, como se a pobreça fosse uma falha moral e não resultado de séculos de exclusão estrutural. Com isso, o Estado foi progressivamente desmontado, programas sociais foram desvalorizados e milhões de pessoas foram lançadas à própria sorte — tudo isso enquanto a natureza era tratada como mercadoria e o racismo se aprofundava, agora revestido de uma suposta “inevitabilidade” do mercado.

Essa lógica se sustenta graças a um poderoso mecanismo: a violência simbólica. Desde a colonização, criou-se um “mito do brasileiro” — o homem cordial, alegre, mas também impulsivo e violento —, uma imagem que serve para justificar desigualdades como se fossem traços de caráter nacional. Nos fizeram acreditar que há um “jeito de ser brasileiro”, diferente do “jeito europeu” ou “norte-americano”. No entanto, do ponto de vista biológico, somos todos Homo sapiens. O que nos diferencia não são genes, mas histórias, culturas e, sobretudo, relações de poder. A “nação” é, como bem lembra o antropólogo Benedict Anderson, uma comunidade imaginada — e, no caso do Brasil, foi imaginada para ocultar privilégios e naturalizar hierarquias.

E quem se beneficia com isso? Grandes corporações, que no neoliberalismo encontraram o ecossistema perfeito para lucrar em escala global. Elas não só exploram mão de obra barata e recursos naturais, como também nos convencem de que o setor privado é “eficiente” e o Estado, “corrupto”. Dessa forma, transferem para a esfera pública a culpa por problemas que elas mesmas ajudam a criar, enquanto seguem financiando políticos, influenciando leis e moldando desejos por meio do marketing e da mídia.

Tudo isso só é possível porque muitas pessoas perderam a empatia — a capacidade de se colocar no lugar do outro. Quando deixamos de nos reconhecer no sofrimento alheio, aceitamos discursos que culpam a vítima, criminalizam movimentos sociais e tratam a terra como objeto de exploração infinita.

Mas há saída. A ciência, a educação crítica e a arte podem nos ajudar a desmontar essas narrativas. E, no nosso caso, até um jogo como o Minecraft tornou-se ferramenta de resistência.


Minecraft: Um Laboratório de Consciência Crítica

No Minecraft, não estávamos apenas jogando — estávamos desconstruindo a violência simbólica por meio da experiência lúdica. Criamos cenários que espelham a desigualdade brasileira: de um lado, bairros opulentos com recursos abundantes; de outro, periferias esquecidas, sem infraestrutura. Essa não era apenas uma representação — era a materialização de um sistema que segrega e exclui.

Desenvolvemos narrativas interativas em que tínhamos de enfrentar “elites” digitais que controlavam os recursos do vilarejo. Essas missões nos fizeram refletir: como se dá o acesso à terra? Quem define as regras? Quem é excluído?

Organizamos eventos comunitários, como assembleias virtuais e manifestações simbólicas, que reproduziram lutas reais por moradia, educação e saúde. Colocamos placas educativas com dados sobre desigualdade e história do Brasil, transformando o jogo em um espaço de formação política.

Também promovemos ações de resistência: construímos cooperativas autogestionárias, sistemas de cultivo coletivo e vilas sustentáveis que mostravam ser possível viver de outro modo — sem destruir o meio ambiente, sem concentrar riqueza, sem repetir estereótipos.

Por fim, criamos artefatos culturais que celebravam a diversidade brasileira — desde padronagens inspiradas em grafismos indígenas até construções que homenageiam a arquitetura africana. Isso nos permitiu questionar a noção de uma “cultura nacional única” e valorizar nossas raízes plurais.



Concluímos, assim, que a violência simbólica só se sustenta enquanto não for nomeada e confrontada. Seja na vida real, seja no mundo virtual, a mudança começa quando passamos a questionar as histórias que nos contam — e a contar outras nós mesmos. Como você tem usado games, arte ou educação para despertar esse olhar crítico em sua família ou comunidade? Compartilhe nos comentários ...

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